Refugiados sírios abandonam Turquia anos depois de sua chegada

Por Fulya OZERKAN
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Homem carrega criança enquanto migrantes e refugiados sírios marcham ao longo de estrada na fronteira entre Turquia e Grécia, no dia 18 de setembro de 2015

Decepcionados com a falta de emprego e de perspectivas de futuro, muitos refugiados sírios que passaram anos vivendo na Turquia sonham cada vez mais em ir para a Europa, apesar da generosa política de acolhida do governo turco.

Dois dias depois da publicação da foto de Aylan Kurdi, um menino sírio de 3 anos que morreu afogado em uma praia da Turquia e cuja imagem comoveu o mundo, o presidente Recep Tayyp Erdogan telefonou para o pai da criança.

"Por que foram embora? Se tivessem ficado aqui, toda a sua família estaria viva", afirmou.

É a mesma pergunta que muitos se fazem no governo turco diante do êxodo de milhares de migrantes que se arriscam ao embarcar rumo às ilhas gregas com a esperança de se instalar em algum dos países da União Europeia.

A maioria é de sírios que fugiram de seu país e que queriam refazer suas vidas na Turquia. Mas agora decidiram que vão tentar a sorte na Europa.

"Há dois milhões de sírios na Turquia, e não há dinheiro suficiente para todo mundo", afirma Hamid, de 25 anos, formado em Ciências Políticas pela Universidade de Damasco que está há vários dias acampando em Erdine (noroeste) com a esperança de cruzar a fronteira com a Grécia.

"Economicamente a Turquia não pode se ocupar dos sírios, acredito que teremos que ir todos embora", assegura, uma realidade que custa ao governo turco reconhecer.

Durante anos, Erdogan tem defendido com orgulho sua política de acolhida de refugiados sírios e criticado a falta de generosidade de seus vizinhos europeus, os quais depois da morte de Aylan acusou de ter transformado o Mediterrâneo em um "cemitério de migrantes".

Mas muitos observadores asseguram que a Turquia não soube dar-lhes emprego, nem um projeto de futuro.

"A história da acolhida de refugiados na Turquia, com seus campos cinco estrelas e sua política generosa de portas abertas, começou com êxito. Mas agora está se transformando em fracasso", afirma Metin Corabatir, presidente do Centro de Investigação do Asilo e das Migrações (Igam) de Ancara.

Mais de 2 milhões de refugiados desde 2011

O governo assegura ter gasto cerca de 6,6 bilhões de euros para acolher os 2,2 milhões de migrantes sírios que chegaram à Turquia desde 2011.

Mas até agora somente 260.000 vivem nestes campos de refugiados "de luxo", com escolas e acesso à internet. O resto vive mal, pedindo esmolas ou com trabalhos esporádicos nas ruas das grandes cidades.

Oficialmente, estes sírios são "convidados" da Turquia: o governos só concede o estatuto de refugiado aos europeus e ao resto é aplicada uma versão limitada da convenção de Genebra sobre o tratamento das vítimas de guerra.

"Os refugiados têm direitos mas os convidados não", afirma Murat Erdogan, diretor do centro de política e migrações (Hugo) da Universidade de Hacettepe, e recorda que os sírios "só têm uma proteção temporária na Turquia, não um estatuto legal".

As autoridades afirmam que, por sua situação geográfica, a Turquia só pode ser um país de trânsito, não de residência.

"Não consideramos este estatuto temporário (de convidado) um defeito, mas uma proteção", assegura um funcionário turco, que critica as reticências dos países europeus para tratar dos pedidos de asilo que são transmitidos pela Turquia.

Apesar de suas promessas, até agora a Turquia não deu permissões de trabalho aos sírios porque temem o descontentamento da população local, cada vez mais hostil.

"Aqui já não há futuro algum para nós", disse Jihad, um estudante de química de 22 anos que tentou duas vezes, sem êxito, entrar na Grécia. "Na Europa tudo é muito melhor", assegura.

Para Metin Corabatir, os sírios teriam que gozar de direitos elementares e "passar do estatuto de simples beneficiários das associações de caridade a autênticos atores da economia do país".