Refugiados se reinventam na pandemia para superar as dificuldades

Ana Clara Veloso e Stephanie Tondo
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A gambiana Mariama Bah fundou a marca de roupas Sabaly, e está confeccionando máscaras com estampas africanas para vender

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A gambiana Mariama Bah fundou a marca de roupas Sabaly, e está confeccionando máscaras com estampas africanas para vender

Se para os trabalhadores informais brasileiros a pandemia do novo coronavírus trouxe dificuldades, para os refugiados de outros países que vivem no Brasil, a situação é ainda mais grave. Muitos empreendiam e, com as medidas de isolamento social, perderam ou tiveram reduzida sua fonte de renda. Outros não têm documentação, o que inviabiliza o recebimento de auxílios do governo. Sem família e amigos próximos com quem possam contar, eles precisaram se reinventar para superar as dificuldades.

É o caso da gambiana Mariama Bah, que não quis revelar a idade. Ela veio para o Brasil há cinco anos com a filha. Forçada a se casar aos 14 anos, Mariama não queria que a menina sofresse as dificuldades de ser mulher em um país como a Gâmbia. Mas, ao chegar aqui, ela sentiu falta da “beleza africana” e decidiu confeccionar roupas com cores e estampas de seu continente. Com a pandemia, as vendas cessaram e ela passou a vender máscaras com os tecidos:

— Hoje, não estou conseguindo vender roupas, o que dificulta o meu sustento. Mas percebi uma solidariedade muito grande no Brasil. Há pessoas que juntam dez amigos e fazem um pedido grande de máscaras. Isso ajuda a levantar a minha autoestima. É muito difícil empreender quase sozinha, mas com todas as dificuldades, ver que você trouxe o pão para a casa, é gratificante.

Vendedores do calçadão de Copacabana, os colombianos Ninibe Forero e Leonardo Ruge, de 40 e 44 anos, perderam 70% da renda por conta do esvaziamento das ruas. O casal deixou a Colômbia por perseguição política. No Brasil, eles vendem quadros e bijuterias artesanais, para sustentar dois filhos adolescentes, de 13 e 14 anos. Por conta da pandemia, passaram a investir nas redes sociais da marca Made In Colombia RJ, mas o resultado não tem sido totalmente satisfatório, conta Ninibe.

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— Tentamos contatos com clientes que já tínhamos, falando que estamos fazendo quadros por encomenda, mas até agora não recebemos nenhum pedido. Nas redes da marca de bijuterias, a situação está um pouco melhor, temos feito promoções, e é o que nos traz os 30% de renda mantida. Mas a verdade é que está sendo muito difícil.

A família chegou a atrasar contas no mês passado, mas em maio conseguiu quitá-las, pois acessou o auxílio emergencial de R$ 1.200. Além disso, foi uma das famílias contempladas pela distribuição de cestas básicas que a Cáritas tem oferecido.

Filha de libaneses, a refugiada venezuelana Maria Elias El Warrak chegou ao Brasil em 2015 com o marido e filhos pequenos, que não tinham com quem deixar. Por isso, decidiram se dedicar à cozinha. Ela conta que no começo foi difícil, mas depois que passaram a participar das feiras da Junta Local a situação melhorou. Ela passou a fazer buffet para eventos, mas com a pandemia tudo mudou. Agora, para ganhar dinheiro, eles têm feito quentinhas gourmet, com carnes nobres e pratos árabes.

— Fizemos folhetos e entregamos nos prédios para divulgar. A aceitação tem sido muito boa. Algumas pessoas pedem quase todos os dias. Tem dias que vendemos cerca de 15 quentinhas, mas às vezes vendemos só duas. Apesar disso, conseguimos ter lucro. Não é muito, porque agora não dá para ficar rico, mas ajuda a sobreviver — conta Maria, que também recebe o auxílio-emergencial do governo.

Muitas vezes em situação de vulnerabilidade e fazendo trabalhos informais, os refugiados podem ser especialmente impactados pela pandemia. As ruas vazias atrapalham suas vendas, e a falta de documento impede o acesso ao auxílio emergencial de R$ 600, como ocorreu com Tshiela Kabeya Laurence, de 62 anos.

Quatro anos após sair da República Democrática do Congo para se refugiar no Brasil, ela nunca tinha cogitado fazer seu Cadastro de Pessoa Física (CPF). Se sustentava com o dinheiro de sua aposentadoria, retirada pelo filho na pátria de origem e enviada por meio de uma empresa de transferências de dinheiro e câmbio. Desde a chegada do coronavírus ao país, no entanto, esse serviço foi suspenso, e ela ficou sem receber sua única renda.

— Até agora, eu não precisava (do CPF). Sou uma pessoa traumatizada pelo que experimentei no meu país e vivo quase fechada comigo mesma. Mas com essa pandemia, conheci o valor do CPF, quero tê-lo e me integrar à sociedade brasileira — afirma ela, que tenta retirar o documento há um mês: — Mas não recebo resposta. Eu tenho um senhorio que entende minha situação. Mas todas as minhas contas estão em atraso.

Estuprada por bandidos no Congo, Tshiela foi abandonada pelo marido e viu os filhos sofrerem pelo estigma social que as mulheres vítimas deste crime sofrem no país. Por isso, também não tem parentes com quem contar no Brasil. Esse é um dos complicadores para refugiados, diz a assistente social da Cáritas RJ, Débora Marques.

— Refugiados são pessoas que saem de seus países de origem para salvarem suas próprias vidas e que, por isso, de forma geral, não têm tempo de se organizar. Chegam sem recursos financeiros, sem redes de apoio social e familiar, e sem poder contar com experiência de trabalho, pois a formação de origem deles geralmente não é reconhecida no Brasil. Eles se inserem nas classes mais baixas da população brasileira: vão morar em comunidades e se reinventam vendendo comida e artesanato, informalmente — explica.

Tereza Cristina Ferreira, coordenadora de atendimento do Sebrae, conta que imigrantes também podem se formalizar como microempreendedores individuais (MEIs), o que dá mais oportunidades de negócios e gera credibilidade.

— Se o estrangeiro decidir se cadastrar como MEI precisa informar país de origem, colocar os documentos, o registro migratório, e o documento do registro nacional. Caso não tenha título de eleitor pode emitir uma declaração de renda. Na prática, são as mesmas normas exigidas para os brasileiros — explica.

Ela afirma ainda que a recomendação, neste momento, para quem busca empreender é investir na digitalização dos negócios, com vendas pela internet.

— É importante que as pessoas se capacitem para trabalhar com Instagram e o workplace do Facebook. É um mundo muito diferente, as pessoas vão olhar o que você faz a partir do que você está postando — afirma.

O Sebrae oferece cursos virtuais no portal www.sebrae.com.br.

As máscaras com estampas africanas custam entre R$ 10 e R$ 12. O perfil no Instagram é @sabalyoficial. As quentinhas gourmet da Maria Elias custam R$ 15 e são entregues em Tijuca, Centro e Zona Sul (@cozinhalibanesa). Já as bijuterias da família colombiana podem ser compradas pelo Instagram @madeincolombia.rj.