Região dos Lagos tem praias e cidades esvaziadas em feriado contra Covid-19 e turistas apostam em passeios de barco para ‘driblar’ proibição da orla

Arthur Leal
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BÚZIOS e CABO FRIO – Um domingo com sol, calor e céu de brigadeiro em meio a um feriado de dez dias. Em tempos normais, esta receita seria um convite para que as ruas e praias da Região dos Lagos estivessem completamente tomadas de turistas. Com as restrições mais rígidas impostas e a instalação de barreiras sanitárias no acesso aos municípios por conta do avanço da Covid-19, no entanto, o que se vê é um cenário totalmente diferente. Neste domingo, O GLOBO esteve nos principais pontos de Búzios e Cabo Frio, onde – apesar de alguns casos de desrespeito –, o que predominou, inclusive na cobiçada e paradisíaca orla dessas cidades, foi o acolhimento às regras.

Logo na chegada a São Pedro da Aldeia, na Via Lagos, os motoristas já encontram uma barreira sanitária que vale, tanto para o município, quanto para Cabo Frio. No início da manhã, uma fila de no máximo 6 ou 7 carros se formava e eles não demoravam a passar – ou serem barrados por não estarem de acordo com os critérios.

Muitos dos visitantes que conseguiram adentrar a região, optaram pelo lazer em barcos. Em Búzios, o maior flagrante de aglomeração pôde ser visto na Orla Brigitte Bardot: era por volta de 11h da manhã e o sol já ardia a cabeça quando dezenas de pessoas se enfileiravam num beco, em frente a uma das plataformas do píer, enquanto aguardavam sua vez de embarcar numa escuna. A reportagem questionou os trabalhadores que promoviam o passeio, de cerca de três horas e com uma parada para mergulho. Apesar do fato de o barco de dois andares aparentar estar bem cheio quando saiu mar à fora, todos garantiram que seguiam a determinação municipal de 50% da ocupação máxima, e que promoviam apenas a metade dos passeios. Na fila, pessoas que diziam ser ligadas à prefeitura checavam a lista de passageiros inscritos num papel, onde controlavam a lotação.

– Se quiser um passeio mais reservado nós temos também o barco dos pescadores, que é menor, e você pode levar bebida, fazer churrasco. Você aluga, cada pessoa paga R$ 200 e leva amigos ou a família. Nesse, podem ir até dez pessoas – ofereceu um promotor dos passeios, que, questionado se a quantidade de tripulantes não estava acima do permitido, afirmou que a embarcação tem capacidade para 16 pessoas.

Perto dali, também foi flagrada a única cena de desrespeito à permanência na areia entre todas as praias visitadas: numa pequena faixa de areia, bem ao lado do píer, uma família de 5 pessoas conversava tranquilamente, todos sentados em cadeiras de praia, com um guarda-sol, sem serem incomodados por qualquer tipo de fiscalização.

De acordo com a prefeitura de Búzios, de sexta-feira para cá, duas embarcações foram autuadas pela Guarda Marítima por estarem promovendo aglomerações. Neste sábado, duas festas foram encerradas e dois bares receberam intimação por irregularidades previstas no decreto.

Em pleno horário de almoço, as poucas pessoas que eram vistas na tradicional Rua das Pedras, na maioria das vezes eram funcionários dos também raros estabelecimentos abertos. À reportagem, os comerciantes foram unânimes em afirmar que, com o aperto das restrições e a implementação das barreiras sanitárias, o movimento, que já estava bem abaixo do normal, está ainda menor nesse feriado. À noite, horário de pico do point, eles garantem que a coisa também não fica muito diferente. “Estamos com um movimento pelo menos 80% menor”, contou o gerente de uma loja de sorvete. Na popular creperia Chez Michou, os funcionários também relataram uma queda no movimento como nunca antes vista naquela área.

Em Búzios, a permanência nas praias está proibida. No entanto, a prefeitura resolveu flexibilizar a restrição, permitindo exercícios físicos e banho de mar. No fim da manhã, O GLOBO esteve na Praia de Geribá, uma das mais populares da cidade. O cenário era muito diferente do usual: na faixa de areia, nenhuma cadeira de praia, guarda-sol, cooler ou canga. Até havia movimento, mas muito menor que o comum. Apesar de um ou outro espertinho, que dava um “jeitinho” para permanecer na praia, mesmo que de pé, predominava as pessoas que faziam sua corrida, caminhada ou surfe. Escolinhas de surfe, inclusive, recebiam alunos.

Perto dali, num dos famosos corredores que dão acesso à praia, o panorama traduzia bem o cenário de maior acolhimento ao isolamento social neste feriado: os restaurantes e sorveterias, a poucos passos da areia, estavam às moscas.

Em Cabo Frio, a reportagem esteve por volta das 10h30 na Praia do Peró, uma das mais frequentadas na cidade em dias de sol. O cenário era de um deserto quase que absoluto. Entre as três ou quatro pessoas que passaram correndo pela areia enquanto a equipe esteve no local, estava a dona Severina Barbosa, de 65 anos. Ela disse que veio à casa do genro na cidade, onde costuma ir para “fugir” da agitação, e fazia seu exercício matinal.

– Eu observei que as praias estão vazias. As pessoas até estão respeitando bastante, mas não são todas. Ontem à noite, por exemplo, os bares no (bairro) Jardim Esperança estavam cheios. Hoje eu estou caminhando aqui porque a casa do meu genro é aqui dentro (da área da praia). Essas medidas são muito importantes, mas eu acho também que tem muita gente que precisa trabalhar, senão vai acabar morrendo de fome – opinou.

Foi também em Cabo Frio que a reportagem encontrou uma das imagens mais emblemáticas desse momento crítico da pandemia: a principal praia da cidade, a Praia do Forte foi cercada de ponta a ponta por grades, na tentativa de impedir o acesso à areia e ao mar. Apesar de alguns poucos terem simplesmente pulado as cercas e ignorado tanto o decreto municipal quanto a pandemia, a iniciativa teve sucesso. A praia, conhecida por estar sempre tomada de gente em dias de sol como este domingo, estava praticamente deserta.

Julieta Sofia Barrientos trabalha há sete anos no quiosque Recantos do Mar, que fica de frente para a praia mais badalada da cidade. Ela conta que observa que o decreto da prefeitura, que passou a valer esta semana, tem surtido efeito, apesar de ainda ter quem desrespeite as regras.

– A Praia do Forte é muito difícil de se fechar completamente, porque é muito extensa. Tem gente que pula a cerca e vai para a praia mesmo assim. Mas, apesar de tudo, está muito tranquilo o movimento, principalmente porque não estão deixando as pessoas entrarem na cidade.

Julieta conta que, apesar da importância do decreto e das medidas restritivas, o novo avanço da Covid-19 tem doído no bolso do estabelecimento. Ela e outros gestores que tocam o quiosque decidiram neste domingo que não devem mais abrir as portas pelo menos até o dia 4 de abril.

– Está muito ruim... a gente vai fechar o quiosque essa semana e deve continuar assim pelo menos até o dia 4 de abril. Estamos decidindo isso hoje, porque o nosso carro forte é o final de semana e quando não tem nada nem ninguém, fica muito difícil – lamentou. – É uma situação atípica, não tinha acontecido nunca. Chegamos à conclusão de que não vai adiantar ficarmos abrindo para vendermos R$ 100, R$ 200 num dia. É inviável. Temos hoje dez funcionários na casa e com o que vendemos não conseguimos nem pagar a diária deles direito no fim do dia. Nós em tempos normais trabalhávamos com 40, 50 mesas. Hoje, trabalhamos com dez. Se pelo menos as dez ficassem cheias, já ficaríamos muito felizes. Agora ficamos na expectativa de que reabram a barreira, porque quando ela está aberta pelo menos pinga um ou outro cliente.

Neste sábado, a prefeitura afirma que acabou com uma festa no bairro Portinho, que era realizada em um pub na Rua Coronel Ferreira, desrespeitando os decretos municipais em vigência. Após o encerramento da festa, os participantes foram liberados e o estabelecimento comercial autuado. Ainda no sábado, a fiscalização percorreu bares e restaurantes em toda a cidade. De acordo com o Comitê Executivo, a grande maioria dos estabelecimentos encerraram as atividades dentro do horário determinado pelo decreto municipal, às 22h.

Além dos bares e restaurantes, os fiscais também encerraram festas realizadas em casas em diversos bairros, entre eles, no Jardim Caiçara e no Tangará. Todas essas ações foram realizadas após denúncias feitas pela população e todos os eventos encerrados. Nas praias, o município acredita que o trabalho de fiscalização apresentou bons resultados nas areias das Praias do Forte, Peró, Ilha do Japonês, Conchas, Pontal do Peró, Foguete e Tamoios.

Hoje, de acordo com a prefeitura de Búzios, há 19 pacientes internados nos 38 leitos disponíveis para Covid-19. Destes, três foram regulados e devem ser transferidos para UTIs fora da cidade, já que o município não conta com leitos de terapia intensiva para tratar pacientes com o novo coronavírus. São 39 mortes e 3.463 casos pela doença desde março do ano passado, de acordo com o município.

Em Cabo Frio, de acordo com a última atualização, neste domingo, há 96% de ocupação nos 47 leitos de UTI da cidade, na soma de hospitais públicos e privados. São 387 mortes e 8.241 casos desde março do ano passado, segundo a prefeitura.