Forças separatistas na Etiópia reivindicam ataques a aeroportos e ameaçam Eritreia

Robbie BOULET
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Etíopes fogem da região de Tigré para o Sudão, em 13 de novembro de 2020
Etíopes fogem da região de Tigré para o Sudão, em 13 de novembro de 2020

As forças do Tigré, região dissidente da Etiópia em guerra contra as forças federais, assumiram neste sábado (14) o bombardeio de dois aeroportos e ameaçaram levar o conflito para a vizinha Eritreia, a qual acusam de apoiar militarmente o governo etíope.

Os projéteis caíram nos aeroportos das cidades de Gondar e de Bahir Dar, capital de Amhara, a cerca de 200 quilômetros da fronteira com o Tigré, e causaram "danos", informou a célula de crise do governo.

Testemunhas relataram explosões e disparos na sexta-feira à noite (13).

Um médico de Gondar disse à AFP que duas pessoas morreram, e 15 ficaram feridas, todas militares. Ainda não há números de Bahir Dar.

As "zonas militares" dos aeroportos de Bahir Dar e de Gondar foram bombardeadas com "foguetes" ontem à noite (13), disse o porta-voz do Comando Central do Tigré, Getachew Reda, à televisão regional.

Na sequência, o porta-voz ameaçou atacar infraestruturas em Asmara, capital da Eritreia, ou de Massawa, um porto eritreu no Mar Vermelho.

"Que os ataques partam de Asmara (capital da Eritreia), ou de Bahir Dar (...), haverá retaliação. Vamos disparar mísseis contra alvos escolhidos, além dos aeroportos", acrescentou.

O comando central do Tigré acusa o Exército eritreu de ter lançado as ofensivas de sexta-feira a pedido do governo federal da Etiópia. Estas afirmações ainda não puderam ser verificadas por fontes independentes.

Eritreia e Etiópia se enfrentaram militarmente entre 1998 e 2000, mas, na complexa situação atual da região, ambos os governos são aliados.

- Últimas munições

"O conselho da TPLF usa as últimas munições de seu arsenal", continuou a célula de crise, referindo-se à Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF), que dirige a região e contra a qual o primeiro-ministro Abiy Ahmed, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2019, lançou uma ofensiva militar em 4 de novembro passado.

Se a TPLF estiver por trás desses foguetes, o partido estaria demonstrando sua capacidade de levar o conflito para fora de seu reduto.

No início deste mês, o chefe do Estado-Maior do Exército Federal, general Berhanu Jula, havia garantido que "a guerra não chegará ao centro do país".

Muitos observadores temem que o conflito leve a uma guerra comunitária incontrolável na Etiópia. Trata-se do segundo país mais populoso da África, com mais de 100 milhões de habitantes e um mosaico de povos unidos em um "federalismo étnico".

O presidente do Tigré, Debretsion Gebremichael, disse à AFP neste sábado (14) não estar a par dos disparos, mas lembrou que os dirigentes da TPLF consideram que "qualquer aeroporto usado para atacar o Tigré seria um alvo legítimo".

Os aeroportos de Bahir Dar e de Gondar são usados por aparelhos civis e militares. A Força Aérea etíope já lançou vários ataques sobre o Tigré, e a TPLF afirma que esses bombardeios deixaram vítimas civis. Essa informação também não pôde ser verificada, de forma independente, até o momento.

Ambas as cidades estavam tranquilas na manhã deste sábado, de acordo com os moradores ouvidos pela AFP.

- 'Massacre'

Milhares de milicianos Amhara (o segundo maior grupo étnico, depois dos Oromo) estão lutando no Tigré ao lado do Exército federal etíope contra a TPLF, de acordo com autoridades regionais. Os Tigré representam 6% da população.

Na quinta-feira, a Anistia Internacional denunciou um "massacre" de civis no Tigré, segundo testemunhos que afirmam que as vítimas eram Amhara e foram mortas pelas forças da TPLF. Debretsion rejeitou a denúncia.

Um Oromo que se tornou primeiro-ministro em 2018, graças a um movimento de protesto popular nas regiões de Oromo e Amhara, Abiy Ahmed foi progressivamente marginalizando a TPLF do poder. No passado, essa frente dominava a política nacional.

As tensões entre Abiy e a TPLF aumentaram em setembro deste ano, quando, após a suspensão das eleições nacionais devido ao coronavírus, a região seguiu em frente com sua própria disputa eleitoral, insistindo em que Abiy é um líder ilegítimo.

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