Região Sul Fluminense está cercada contra o coronavírus

Maiá Menezes
Médicos usam máscara em hospital de Barra Mansa, local do primeiro caso de covid-19 no Rio

Região onde ocorreu o primeiro caso de coronavírus no estado do Rio e o terceiro no país, o Sul Fluminense criou uma espécie de corredor sanitário para evitar que novos casos ocorram. Em Barra Mansa, onde a primeira paciente foi detectada, e Volta Redonda, cidade grande e mais forte economicamente da região, as medidas restritivas se tornaram ainda mais intensas desde a última sexta-feira. A 11,6km de Barra Mansa, Volta Redonda, por orientação do Ministério Público, determinou 100% do fechamento do comércio. Nas duas cidades, tanto as lives dos prefeitos, como os antigos carros de som com notícias regionais estão sendo usadas como instrumentos no combate ao vírus.

-Eu mesmo falo no carro de som: por favor, vão para suas casas, saiam das ruas. E me angustia ver idosos ainda passeando. A situação é grave . É momento de cautela máxima.  Temos ações restritivas nos serviços públicos e privados - diz o prefeito de Barra Mansa, Rodrigo drable (DEM).

 Leia mais: 'Infectado vira fábrica de vírus antes de ter sintomas', diz pesquisadora da UFRJ

As duas cidades, assim como Valença,  criaram um cinturão de acesso à região, fecharam o acesso de ônibus e carros que não sejam de sua própria região. Se forem originários da Baixada Fluminense, da Região Metropolitana do Rio e de outras cidades, não entram nem saem das localidades. Em Volta Redonda, todas as atividades públicas para a terceira idade, o zoológico, que recebe 4 mil pessoas por final de semana, e o parque aquático foram fechados. Servidores com mais de 60 anos foram encaminhados para casa.  Os ônibus municipais ganharam um protocolo de higienização diária. E poderão ser suspensos, dependendo da curva de evolução do vírus. As férias e licenças nos hospitais foram suspensas.

-Cheguei a desligar a luz de campos de pelada. As pessoas insistiam em jogar. Todos os eventos foram suspensos. Tenho certeza de que são medidas anti-populares. Mas não há outra alternativa - afirma o prefieto de Volta Redonda, Samuca Silva (PSC).

Em Barra Mansa, o prefeito se aflige com argumentos recorrentes dos idosos: “não estou preocupado porque já já vou morrer mesmo”.

- Esse descuido ajuda a propagar a doença - diz o prefeito.

Dono de uma empresa de locação para shows em Volta Redonda, Lulu Maia, de 46 anos, trabalha com eventos em Volta Redonda há 30 anos. Está em pânico, porque os 7 shows programados para este mês foram cancelados. Sua renda é zero no momento. Os alvarás de eventos foram todos suspensos. Mas ele defende as medidas:

-Acho importantíssimo. Mandei meus funcionários para casa há uma semana. Não saio na rua. Apesar do impacto financeiro ser muito pesado, reconheço a necessidade de ficar em casa e de se proibir aglomerações - diz Lulu Maia.

Ontem, 86 casos suspeitos em Volta Redonda já tinham sido descartados. Em Barra Mansa, foram 19. A preocupação especial de Barra Mansa é com a população rural. Ao identificar a suspeita, os médicos determinam a quarentena de 14 dias para os pacientes. Os kits para exames são usados em caso de permanência dos sintomas. Há falta de ventiladores. Os postos de saúde fazem a triagem e os municípios estão tentando encontrar leitos de UTI em unidades de UPA ociosas na região.  A maior preocupação são os grupos de risco.

- Na última semana, chegou uma grávida num dos quatro postos de saúde com os sintomas. Separamos um leito especial no Hospital São João Batista - diz o prefeito, que assim como o de Barra Mansa, faz lives diárias para a população.

Planos de Saúde como a Unimed estão criando grupos de trabalho para ajudar nos protocolos. Nesses municipios, foram suspensas cirurgias ambulatoriais. E estão tentando autorização para regular a automedicina, com o atendimento virtual de pacientes de menor risco. O mesmo está acontecendo em Angra dos Reis.

-Criamos uma cartilha, que está sendo adotada pelos prefeitos que estão tentando criar uma espécie de cinturão da saúde  – diz o presidente da Unimed em Volta Redonda, Luiz Paulo Tostes.

O vírus em Barra Mansa, diferentemente do que aconteceu na cidade de Codogno, na Itália, onde 60 pessoas foram contaminadas em uma festa, não veio de forma comunitária. A paciente, de 27 anos, contraiu o vírus em uma cidade italiana. De todo modo, 82 pacientes que tiveram contato com ela na cidade foram examinados pela Secretaria Municipal de Saúde. Entre familiares, colegas de trabalho e mesmo frequentadores do salão de beleza onde a paciente esteve. Nenhum apresentou resultado positivo até o momento.

O prefeito corrobora o depoimento que a paciente deu ao GLOBO na última sexta: o preconceito é grande contra a pessoa que contrai o vírus. Ele diz que mesmo as pessoas com uma simples gripe não se manifestam por medo de preconceito.

- Eu conheço bem a família. Aconselhei  ela (a paciente) e a família a fazerem quarentena social. Está curada. Mas a população não procura se informar, e acaba responsabilizando quem contraiu o vírus.

As duas cidades estão preparando leitos de UTI para novos pacientes, mas incertas quanto ao futuro econômico: são cidades que dependem essencialmente de comércio.

- Barra Mansa vive essencialmente de comércio. Temos noção da fragilidade do momento para a saúde. Mas estamos nos preparando para a próxima crise: a econômica.