Regime de Pinochet não foi ditadura, diz favorito em eleição no Chile

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GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - Líder nas pesquisas eleitorais no Chile, o candidato de ultradireita José Antonio Kast, 55, afirmou a jornalistas estrangeiros que não considera o regime liderado por Augusto Pinochet de 1974 a 1990 uma ditadura.

Dados oficiais mostram que, a mando do general, ao menos 3.200 pessoas foram assassinadas e mais de 40 mil torturadas.

O candidato do Partido Republicano, admirador conhecido de Pinochet, usou como argumento a comparação com outras ditaduras na América Latina e disse que é preciso diferenciar a época pinochetista de regimes autoritários observados atualmente na ilha de Cuba, na Nicarágua e na Venezuela.

"Creio que a Nicarágua representa exatamente o que não ocorreu no Chile de Pinochet: [no segundo caso], foram organizadas eleições democráticas e não se impediram os opositores políticos", argumentou Kast. O presidenciável alegou ainda que o regime de Pinochet teria feito uma "transição democrática", algo não visto nas outras experiências por ele mencionadas.

A história, porém, mostra uma versão um tanto diferente da apresentada por Kast, que disputa a vaga no Palácio de La Moneda pela segunda vez.

Em 1973, Pinochet liderou tropas que, com apoio dos Estados Unidos, derrubaram o socialista Salvador Allende. A partir de então, seguiram-se 17 anos de regime autoritário, com perseguição de opositores e violação de direitos humanos, até que a pressão nas ruas e no fórum internacional forçou o ditador a recuar.

O último relatório da Comissão Valech, colegiado criado pelo governo chileno em 2003 para investigar os crimes da era Pinochet, concluiu que mais de 40 mil opositores ao regime foram executados e torturados. Muitos seguem desaparecidos. Mais de 1.200 vítimas eram menores de idade e, destas, 176 tinham menos de 13 anos.

A época é lembrada especialmente pela brutalidade com as mulheres -pelo menos 3.621 estão entre as vítimas. A maior parte delas foi estuprada de forma individual ou coletiva pelos militares, mostrou o relatório, e pelo menos 13 engravidaram após a violência sexual.

Em 1988, um plebiscito popular decidiu que Pinochet não deveria seguir no poder. O general foi obrigado a aceitar o resultado porque estava sob pressão interna --de empresários insatisfeitos com os rumos econômicos que já não representavam o sucesso de antes-- e internacional, à medida que denúncias das violações cometidas ecoavam em outros países.

Esta, no entanto, não foi a primeira vez em que José Antonio Kast teceu elogios ao ditador Pinochet, morto em 2006. Além de elogiar a política econômica do regime, neoliberal, o presidenciável disse na corrida eleitoral de 2017, e depois repetiu, que teria o voto de Pinochet se ele estivesse vivo.

Em declarações públicas e entrevistas, Kast tem tentado se descolar da alcunha de candidato de ultradireita. "Se estabeleceu pela imprensa que sou extremo; extremo em que? Essa é uma divisão política antiga. Por que creem que alguém de extrema direita lideraria as pesquisas?", disse o candidato a jornalistas estrangeiros.

Católico, Kast é favorável à revogação da lei do aborto no país e ao corte de gastos sociais. O candidato foi um dos que se opuseram à constituinte chilena, processo que redigirá uma nova Carta Magna para o país, ainda regido por um documento costurado pela ditadura de Pinochet. O processo foi aprovado em um plebiscito popular após megaprotestos no país -78,27% votaram a favor.

Há três semanas, quando protestos ocuparam Santiago, capital do país, em comemoração pelos dois anos das mobilizações que desembocaram na Constituinte, Kast declarou que não havia nada para se celebrar. "É um dia para ser condenado. Nunca mais podemos voltar a aceitar a chantagem à institucionalidade do nosso país", disse.

Na reta final da corrida eleitoral -o pleito será realizado no próximo domingo (21)-, Kast tem se referido com frequência às ditaduras de Daniel Ortega, na Nicarágua, e de Nicolás Maduro, na Venezuela, para atacar seu principal opositor, o esquerdista Gabriel Boric, um ex-líder estudantil

O argumento ganhou fôlego na última semana após o Partido Comunista do Chile, que apoia a candidatura de Boric, publicar nota de apoio à reeleição de Ortega em um pleito de fachada.

"Temos que terminar com a política externa hipócrita no Chile. Temos que romper relações com essas ditaduras. O Partido Comunista, que apoia Gabriel Boric, é cúmplice de Ortega", disse Kast em um vídeo divulgado nas redes sociais.

Em uma sabatina no canal local CHV Notícias, Boric foi questionado sobre o assunto. "Em um governo, a política internacional é ditada pelo presidente da República, e meu compromisso é irrestrito e absoluto com o respeito aos direitos humanos", disse, acrescentando que sua gestão condenaria e trabalharia para melhorar a situação em qualquer país que violasse esses princípios.

Ao lado do Brasil, o Chile foi um dos 25 Estados-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) que votaram a favor de uma declaração nesta sexta-feira (12) classificando a reeleição de Ortega de ilegal e antidemocrática.

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