Regime e rebeldes sírios também combatem na Líbia

Nesta foto de arquivo tirada em 5 de maio de 2020 na cidade de Benghazi, leste da Líbia, mostra soldados da polícia militar pró-Haftar escoltando um veículo de prisioneiros capturados durante ofensiva

Os combates entre as forças do governo e os rebeldes perderam intensidade na Síria, graças a um cessar-fogo lançado pela Rússia e pela Turquia, mas o conflito se deslocou para a Líbia, onde mercenários de ambos os lados se enfrentam, protegidos por seus respectivos "padrinhos" russo e turco.

A Turquia apoia grupos rebeldes na Síria e o Governo de União (GNA) reconhecido pela ONU na Líbia. Já Moscou defende militarmente o regime sírio de Bashar al-Assad e apoia a ofensiva conduzida há mais de um ano pelo líder militar do leste líbio, marechal Khalifa Haftar, contra Trípoli, a sede do GNA.

A recente aproximação entre o regime de Damasco e o marechal Haftar ilustra a crescente sobreposição entre esses dois conflitos.

Em março, o governo paralelo pró-Haftar, com sede no leste do país, reabriu uma embaixada da Líbia na capital síria, fechada desde 2012. E já existem voos entre Damasco e Benghazi, reduto de Haftar a 1.000 quilômetros de Trípoli.

Segundo um relatório confidencial da ONU, esses voos da empresa privada síria Cham Wings permitiram que centenas de mercenários fossem despachados para a frente líbia.

Segundo este relatório de especialistas encarregados de monitorar o embargo de armas imposto à Líbia, 33 voos foram realizados desde 1º de janeiro.

"O número de combatentes sírios que apoiam as operações do marechal Haftar é inferior a 2.000", afirma o documento.

Segundo a mesma fonte, esses combatentes foram recrutados pelo grupo mercenário privado russo Wagner, em nome do marechal Haftar.

Moscou nega qualquer envolvimento de seu governo na presença de mercenários russos na Líbia.

- "Inimigo comum" -

Questionado pelo grupo de especialistas da ONU, o regime sírio alegou que os voos da Cham Wings para Benghazi são limitados "ao transporte de civis, principalmente sírios que vivem na Líbia".

Damasco e o marechal Haftar estão unidos, porque têm um "inimigo comum": a Turquia, segundo Samuel Ramani, pesquisador da Universidade de Oxford, em conversa com a AFP.

Para a Rússia, "o objetivo seria alertar a Turquia de que pode sofrer retaliação assimétrica em resposta às ações militares turcas na Síria, com uma escalada recíproca na Líbia".

A Turquia seria ameaçada com uma frente dupla - na Síria e na Líbia - o que a levaria "ao limite de suas capacidades", diz ele.

Especialistas da ONU citam "algumas fontes" para estimar o número total de combatentes sírios na Líbia em cerca de 5.000, incluindo aqueles "recrutados pela Turquia para o GNA".

Questionado pela AFP, o diretor do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman, fala de até 9.000 mercenários sírios enviados pela Turquia para a Líbia, incluindo adolescentes com idades entre 16 e 18 anos.

"Outros 3.300 combatentes estão atualmente treinando em quartéis turcos", esperando para serem enviados para a frente, ao sul de Trípoli, diz Abdel Rahman.

Segundo ele, esses mercenários pertencem ao "Exército Nacional", uma coalizão de grupos rebeldes sírios pró-turcos com sede no noroeste da Síria.

Abdel Rahman estima em 298 o número de combatentes sírios mortos em combate na Líbia. Entre eles, estariam 17 adolescentes.

Segundo Ramani, os Emirados Árabes Unidos, que apoiam Haftar, contratam mercenários sudaneses.

Na Líbia, assim como na Síria, a interferência armada estrangeira não se limita à Rússia e à Turquia, nesses conflitos que deixaram centenas de milhares de mortos e deslocados nos últimos anos.