Quem tem medo de Regina Duarte?

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
Regina Duarte durante a posse no Ministério da Cultura. Foto: André Borges/NurPhoto (via Getty Images)
Regina Duarte durante a posse no Ministério da Cultura. Foto: André Borges/NurPhoto (via Getty Images)

Volto a Aldir Blanc.

“Essa dor assim pungente não há de ser inutilmente”.

Respiro.

O Brasil que sonhava a volta do irmão do Henfil não tem mais Betinho. Não tem mais Henfil. E quem escreveu estes versos não está mais aqui. Morreu de Covid, triste e esquecido.

Da secretária especial da Cultura, nenhuma palavra. A secretaria, desvia-se Regina Duarte, não é obituário. Não cabe a ela fazer homenagens a quem mal conhecia. Grande papel.

No fundo de algum lugar que já não visito, a esperança equilibrista cai e se arrebenta. Lá me encontro comigo mesmo, numa cena de novela em 17 de janeiro, quando o antigo secretário da Cultura foi demitido após levar ao ar um pronunciamento inspirado em Joseph Goebbels, a cabeça por trás do nazismo.

Em algum canto do sistema límbico, um relampejo se esforçava para me convencer que o ato final de Roberto Alvim foi só um acidente. A inspiração foi a razão para entrar ou para sair do governo? Na dúvida, a esperança equilibrista pendia ao otimismo.

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A nomeação de Regina Duarte sinalizava um cessar-fogo. Saía de cena um fã de Goebbels, frustrado e ressentido, e entrava alguém com um currículo a zelar.

A nova secretária não era uma desconhecida quando chegou a Brasília. Diferentemente de Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Ricardo Salles e outras nulidades em suas áreas de atuação, ela não chegava com a bagagem dos ressentidos que nunca tiveram prestígio ou atenção e que fizeram de suas nomeações uma trincheira do revanchismo.

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Sorridente, a namoradinha do Brasil parecia não querer briga com ninguém. Queria apenas trazer o pum do palhaço para o centro da cena. Antes isso do que o cosplay de Goebbels que a antecedeu.

A desastrosa entrevista para a CNN Brasil revelou outra personagem. Uma personagem coerente com os dentes afiados do chefe, Jair Bolsonaro.

Lima Duarte parecia profetizar: agora a Viúva Porcina se casava com o Sinhozinho Malta.

Na entrevista, Regina Duarte demonstrou descontrole, mas também perversidade. Tanto em sua área, ao (não) explicar o silêncio diante da perda de artistas do quilate de Aldir Blanc, quanto em história, ao minimizar os crimes da ditadura, dizer que para morrer basta estar vivo e afirmar que tortura sempre existiu.

Em qualquer governo do mundo declarações assim seriam prontamente refutadas. Aqui, elas só fazem ganhar pontos com seu fiador, orgulhoso por ver suas ideias de mundo tão bem representadas.

Em rede nacional, Regina Duarte mostrou de que lado estava ao aceitar o convite para integrar um governo que despreza a classe artística e fez do medo uma plataforma política.

Entre as flores e a botina, Regina fez sua opção.

Seu pedido de esquecimento aos mortos de ontem e de hoje é, em si, um registro histórico.

Quando, no futuro, esta versão atualizada de 1964 for estudada, seu lugar de destaque estará guardado.

Até lá, fico com a esperança equilibrista de Aldir Blanc. Choro com as Marias e as Clarices. As Reginas que fiquem com o medo.

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