Regina Duarte: leia a íntegra do discurso de posse

RIO — A atriz Regina Duarte tomou posse, nesta quarta-feira, como secretária Especial da Cultura. No mesmo dia da posse, o maestro Dante Mantovani foi exonerado do cargo de presidente da Funarte. Na terça-feira, já havia sido antecipado que seis funcionários, entre diretores e secretários da pasta também foram demitidos. Em seu discurso, Regina disse que o convite que ela recebeu para o cargo vinha com “carta branca”. Confira o texto na íntegra:

“A claque veio, né?

Presidente Jair Messias Bolsonaro, meu amigo, nosso amigo. Vice-presidente general Hamilton Mourão, Michelle Bolsonaro, nossa primeira-dama, linda, suave, doce, iluminada. Cumprimento todos os ministros presentes em nome do nosso ministro Marcelo, do Turismo, demais autoridades, imprensa, senhoras e senhores.

Presidente, o que está na cartilha é que a cultura é um dos principais pilares dos desenvolvimentos social e econômico do país. Apoiar, incentivar, promover, dar acesso à riqueza cultural de um povo é dever do Estado, conforme previa a Constituição Federal. E é isso que nós todos queremos.

Uma cultura forte consolida a identidade de uma nação. A cultura é um ativo que gera emprego, renda, inclusão social, impostos, acessibilidade e educação. E é nisso que acreditamos. A iniciativa do governo Bolsonaro de integrar a Cultura e o Turismo oferece ao país a oportunidade de somar o resultado das duas atividades. Meu propósito aqui é a pacificação, o diálogo permanente com o setor cultural, com os estados, os municípios, o parlamento e com os órgãos de controle.

O apoio do legislativo é indispensável para que se tornem reais os objetivos da tarefa que vamos iniciar juntos a partir de hoje. Agradeço a confiança e a força que tenho recebido do presidente Bolsonaro, do ministro Marcelo e de suas equipes. Agradeço de forma especial à minha família, ao apoio que tem me dado sempre que decido enfrentar novos desafios.

Agradeço a Deus pela oportunidade que estou tendo de contribuir com a arte e a cultura, minhas fontes de inspiração, de gratificação e de toda uma vida. Amém.

Para chegar até aqui, precisei me apoiar na força de muita gente: ‘Calma, calma. No começo é assim mesmo, depois melhora’. Quem me estendeu a mão sabe o quanto me ajudou, sabe da minha gratidão, e eu não preciso citar nomes. A lista é imensa, né, general Ramos? Manda um abraço para Natasha.

General Ramos me deu muita força, tive muito incentivo do tipo: ‘Vai, vai lá, vai. Segura essa para a gente antes que um aventureiro lance mão’.

Aí, eu vim e me pendurei no carinho de milhares de pessoas que me escreveram no Instagram. Não posso deixar de agradecer às pessoas anônimas com quem cruzei nos últimos dois meses na rua, nos aeroportos, na feira, nos supermercados. De 97% eu recebi aprovação. Era aquela coisa, a gente cruzava o olhar, quando vinha aquele sorrisão confiante de esperança, eu dizia: ‘É Bolsonaro’.

Quando não era, abaixava o olhar e saía de lado. E é com essa blindagem de confiança e de generosidade que estou conseguindo chegar aqui. Namoro de mais de 50 anos com o Brasil, noivado, proclamas. A gente brinca, né, presidente? Não quando está dando bronca, né, presidente? Ele é bravo. Já soube que ele é bravo.

Tem uma leveza nesse nosso jeito de ser, de levar a vida. É uma coisa que eu diria (que é) muito brasileira, é cultural, é (do) Brasil. Eu sinto que nós dois estamos sempre às voltas com umas tiradas de humor, e com isso a gente se alimenta de ‘momentitos’ de felicidade para segurar as barras e as ondas da adversidade.

Mas vamos ao que interessa. Regina Blois Duarte, filha de pai militar e de mãe professora de piano. Criada com quatro irmãos, mãe de três filhos, avó de seis netos, municiada de confiança e coragem e se apresentando para a missão.

Então, o convite que me trouxe até aqui falava em porteira fechada, carta branca. Não vou esquecer, não, hein, presidente?

E foi com esses argumentos que eu me estimulei e trouxe para trabalhar comigo uma equipe apaixonada, experiente, louca para botar a mão na massa. Olá, equipe. Cadê, equipe? Equipe! Obrigada, equipe. Obrigada por acreditar, por estar aqui comigo hoje, agora. A gente se fala já, já e já começamos a trabalhar.

Então, nos somamos agora aos funcionários da Cultura, aqueles que sabem tudo. Os indispensáveis, os que fazem o carro andar, e unidos agora com a valorosa equipe do presidente. Esse timaço que o governo Bolsonaro conquistou e é composto de heróis. É esperança na veia.

Ministros, estar com vocês na batalha é uma honra, uma grande honra para melhorar tudo isso. Olha só que maravilha, estamos unidos aos milhões e milhões de brasileiros. Uma gente que deseja e merece viver em um país onde a cultura seja passaporte para a vida plena, recheada de sonhos, de fantasias, emoções, momentos felizes sempre. E que cultura seria essa geradora de tanta felicidade, dona Regina? Para começar, e sem mais tecnicidades que a festa não comporta, acho que seria alguma coisa que não passasse nem perto do conceito de domínio. Eu falo de cultura como libertação, falo dessa argamassa de hábitos, de comportamentos, rituais, costumes que se autogeram, se autofertilizam no seio do povo. Falo desse caldo de cantos, danças, brincadeiras de roda, papagaio, pipa no céu, palavrão, tatuagem, arroz com feijão, farofa de mandioca, pastel de feira, pão de queijo, caipirinha de maracujá, chimarrão, culto, missa das dez, desafio repentista, forró, e aquele pum produzido com talco espirrando do traseiro do palhaço e fazendo a risadaria feliz da criançada. Cultura é assim, é feita de palhaçada, de música. Os musicais, aqueles espetáculos que a gente sai com vontade de seguir vida fora cantando, dançando, e aquele teatro mais sério, aquele teatro que bota a gente pra pensar com cenas e emoções tipo soco no estômago.

Cultura é aquilo que faz, a cada gol do nosso time de coração, todo mundo gritar junto golll! Cultura é feita daqueles filmes que retratam, como no espelho, às vezes distorce a nossa vida. Romance, suspense, humor, malícia sexy. Tem aqueles que a gente ama e recomenda, vai vai vai que você vai adorar. (Outro) Não é imperdível, e tem aqueles que a gente reprova, acha impróprio, bota a boca no trombone. Não, não vai que é ruim, é constrangedor, é uma porcaria, não vai. Mas pode acreditar, presidente, que a gente nesse Brasil de meus Deus tem uma cultura de ponta. Uma coisa de dar orgulho na gente. Artes plásticas, pintura, escultura, artesanato, moda, museu, poesia, literatura. Mas que literatura maravilhosa que a gente tem, é um universo sem fim.

A cultura de um país é a sua alma, seu passado, seu presente, seu futuro, e assim como a família é sólida. Quando a família cultiva seus valores, suas raízes, quando a família gera seus frutos, assim uma nação tem que nutrir e zelar pela cultura de seu povo. Democratizando, repartindo com equilíbrio as fatias do fomento para que todas as regiões do país possam ter viabilizadas e expostas a sua produção. E para que toda população possa desfrutar da nossa magnífica expressão cultural. Esse é um processo que não tem dono, não é privilégio dos grandes centros não, das grandes cidades, é direito de todos. E eu posso agora até passar por ingênua, mas eu acredito que se possa fazer muita cultura, fazer arte, tudo com os recursos que temos, criativamente, como no meu tempo de amadora.

‘Ooh, ah não agora não, ela já está passando do ponto, já está se perdendo!’ Não, acredito também que se possa fazer mais com mais. Acredito na busca da beleza. Sabemos que beleza é inerente ao conceito de arte e assim, para não fugir à regra na busca de uma beleza maior, vamos passar o chapéu como de praxe, por que não? Se a vontade de fazer é sempre mais, e grande, e os recursos são escassos, vamos passar chapéu sim, né, Daniela?

A cultura é um direito de todos, a cultura é uma ponte para conseguirmos alcançar esse sentimento de pertencimento, que se pode chamar também com certeza de felicidade. Sabe aquela paz que o viver entre irmãos nos dá. Mas não é isso que somos? Irmãos? Brasileiros compatriotas irmãos. Na verdade somos mesmo todos irmãos. Somos na verdade um só corpo, e não nos recusamos a nos assumir como parte desse corpo nação. Esse corpo que tem mãos para plantar, para colher, mãos para sobreviver, mãos inclusive independentes, cada qual livre para agir, livre e a seu bel prazer de acordo com suas individualidades. Mas não podemos esquecer que somos de um só corpo, pátria, e que na hora da adversidade, na hora de se proteger do mau tempo, na hora de construir uma vida melhor de preparar o futuro para filhos e netos, são mãos que sabem que é preciso unir, trabalhar em conjunto, se dar as mãos e, se preciso, em oração.

Obrigada, obrigada por terem vindo. É uma honra, uma honra. Obrigada, obrigada.”