Regina Duarte, a vedete

Artur Xexéo

Desde que o nome de Regina Duarte surgiu como provável próximo titular da Secretaria Especial da Cultura, muito se tem falado das personagens que ela interpretou no transcorrer de sua carreira. A Viúva Porcina virou referência diária na charge de Chico Caruso. Malu Mulher é sempre lembrada para expor as contradições de Regina, que — é ela quem confessa — nunca foi feminista, nem quando interpretava a maior das personagens feministas da televisão brasileira. Tendo que pensar em Regina Duarte, não tenho me lembrado de nenhuma dessas grandes interpretações. É tão inusitada a possibilidade de ela participar do batalhão de frente do presidente Bolsonaro que o que me tem vindo à lembrança é a mais inusitada das experiências que ela teve na carreira: ser estrela da revista “Regina mon amour”, que ocupou o palco do Canecão no verão de 1972.

Regina tinha acabado de protagonizar a novela “Minha doce namorada”. Era o nome mais improvável para estrelar uma revista, cheia de decotes e pernas de fora. Mas ela topou. O Canecão procurava produzir espetáculos que atraíssem turistas de outros estados na temporada de férias. Para isso, convocou o diretor Augusto Cesar Vannuci e uma penca de nomes famosos. Regina era o mais famoso de todos. Ela vinha à frente de Miele, Sandra Bréa, Vera Fischer, Wanderley Cardoso, José Augusto Branco, Vilma Vernon e Erlon Chaves e a Banda Veneno. A ideia era simples: reproduzir no palco cenas de musicais famosos do cinema. Lembro-me de Regina imitando Carlitos, interpretando Mary Poppins, repetindo uma cena de “Funny girl” e, ousadia das ousadias, replicando uma coreografia meio erótica de “Sweet Charity”. Ela dançava, cantava (dublando a própria voz) e vestia um maiô quase provocante na cena de “Charity”.

Mesmo sendo a maior surpresa da temporada, Regina não foi o maior sucesso do espetáculo. Miele roubava a cena numa imitação-relâmpago de “A Pantera Cor de Rosa” e, ao lado de Sandra Bréa, recebia o maior volume de aplausos na reinterpretação de “Money, Money”, de “Cabaret”.

“Regina mon amour” foi esquecida pela história do show business carioca. Não se pode dizer que tenha sido um esquecimento injusto. A personalidade artística de Regina não tinha nada a ver com aquilo. Ela não nasceu para ser vedete, mas foi corajosa em aceitar o desafio. Desde então, talvez seu maior desafio venha a ser a ocupação do cargo político que lhe foi oferecido agora. Será que a personalidade de Regina tem algo a ver com isso?

O governo vende a ideia de que ela já aceitou. Só falta estabelecer uma ou outra cláusula do contrato de casamento. Enquanto ela não diz sim, a Secretaria fica com a reverenda Jane (que é isso?). Regina também não expôs ainda o que acredita ser a função do posto que lhe está sendo ofertado. Por enquanto, a gente tem que acreditar no que ela disse no vídeo que gravou para a campanha eleitoral de Bolsonaro: “Arte tem que ser livre. Quem tem que aprovar, elogiar, prestigiar, recusar, falar mal, criticar, detonar é o público.” Se ela atuar no governo seguindo esse pensamento, aí, sim, ela vai ser, de novo, a Regina, mon amour.