Rei de Sanwi, na Costa do Marfim, invoca espíritos ancestrais contra pandemia

Por Christophe KOFFI
Amon N'Douffou V, rei de Sanwi, na Costa do Marfim, pede aos ancestrais para lutar contra o novo coronavírus, em Krindjabo

"Peça a Deus, as espíritos dos ancestrais, que protejam a população para tirar esse vírus do reino, da Costa do Marfim e do mundo!", disse o rei de Sanwi, no sudeste desse país africano.

Além de respeitar as medidas de proteção, sua majestade Amon N'Douffou V também confia nas práticas tradicionais na luta contra o coronavírus para proteger seu reino de três milhões de habitantes (a maioria na Costa do Marfim, mas também no vizinho, Gana).

Ritualistas vestidos de branco purificam a corte real com uma mistura musical especial, cantando a canção local "abôdan".

Tradicionalmente, nesse tipo de cerimônia especial para lutar contra calamidades (secas, má colheitas, inundações), reúnem-se centenas e às vezes milhares de pessoas.

Mas dessa vez apenas poucos convidados assistem ao ritual, seguindo as regras que proíbem aglomerações e impedem que mais de 50 pessoas se reúnam para evitar a propagação do vírus.

Na última semana, a Costa do Marfim contabilizava mais de 1.000 casos de contágio e 14 mortes.

O país conta com centenas de reis e chefes tradicionais, herdeiros de uma organização de antes da era colonial. Essa rede tradicional em todo território funciona em paralelo às estruturas políticas.

Esses reis dispõem de um grande respeito e são respeitados por sua sabedoria ancestral. Os políticos costumam visitar esses líderes locais antes de tomarem, ou anunciarem decisões.

- O visível e o invisível -

Rodeado de uma escolta que usa máscaras de proteção, o rei faz sua aparição pública poucos minutos antes da corte real de Krindjabo, um pequeno povoado do reino.

Usando um pareô colorido, uma longa corrente de ouro no pescoço e uma coroa de ouro na cabeça, o soberano explica por meio de um intermediário (o rei não se expressa em público) o significado do ritual.

"Estamos reunidos para afastar a má sorte. Vou invocar as almas dos ancestrais para proteger a população contra o coronavírus, esse espírito maligno que vem nos destruir", declara o rei.

"Vivemos em um mundo sem referências: já não existe o respeito aos mais velhos, às regras, ao meio-ambiente. O ser humano se autodestrói", disse.

Depois que o rei e sua corte deixam o local, um homem, o protetor do povo, esvazia o conteúdo de duas garrafas de álcool no chão.

As pessoas presentes na cerimônia tocam o solo cheio do líquido com as mãos, em seguida levantando-nas ao céu, como sinal de fidelidade ao rei.

"Na África, vivemos no mundo visível e invisível. Só o rei tem esse poder para pedir por meio desse ritual a proteção do mundo invisível", explica Ben Kottia, conselheiro real.