Reinado de Elizabeth 2ª foi cercado de mudanças, da tecnologia à influência da monarquia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao morrer nesta quinta-feira (8), a rainha Elizabeth 2ª encerrou um período de 96 anos de vida e 70 de reinado. Mas além de servir como chefe de Estado de alguns dos principais atores geopolíticos do mundo, a matriarca da família real britânica testemunhou mudanças históricas que vão da política à tecnologia.

A mais evidente delas talvez seja a chegada da internet. Como grande parcela das pessoas de sua idade, Elizabeth não sabia utilizar muito bem celulares e outros aparatos tecnológicos. Ela morreu tendo apenas dois contatos em seu telefone, segundo especialistas na família real britânica: o da sua filha, a princesa Anne, 71, e o do gerente de cavalos de corrida da família real, John Warren.

A rainha ganhou seu primeiro celular ainda em 2001 -um Siemens Wap, com tecnologia ainda bem inferior à dos atuais smartphones. Mas, segundo rumores, ela proibiu seus funcionários de andar com seus telefones durante o serviço. Para a rainha, os toques dos aparelhos eram irritantes.

O estopim teria sido quando os celulares dos funcionários tocaram com frequência durante um jantar com diplomatas estrangeiros, ainda no início dos anos 2000. Desde então, o uso dos aparelhos durante as refeições é proibido nos palácios -a regra também vale para os membros da família real.

Outro episódio evidencia a falta de prática tecnológica de Elizabeth. Em 2015, segundo a emissora americana Fox News, ela pediu ajuda aos príncipes William e Harry para configurar sua secretária eletrônica. Na ocasião, eles brincaram com a chefe da monarquia.

"Ei, tudo bem? Aqui é Liz. Desculpe, estou longe do trono. Para uma linha direta com Philip [marido da rainha, morto no ano passado], pressione 1. Para Charles [filho dela, agora novo rei do Reino Unido], pressione 2, e para os corgis [cachorros da monarquia], aperte 3", dizia a gravação.

Elizabeth, claro, ficou perplexa ao ouvir a mensagem dias depois. Segundo o tabloide britânico The Daily Star, a rainha percebeu que se tratava de uma brincadeira e riu ao imaginar as eventuais reações de quem ouviu o recado ao tentar ligar para ela.

Os corgis mencionados por seus netos, aliás, eram uma das paixões de Elizabeth e eram frequentes durante seu lazer. Ao longo de sua vida, ela teve ao menos 30, sendo que todos eram descendentes de seu primeiro cão. No tempo livre, a rainha também gostava de dirigir -ainda que não tivesse carteira de motorista.

MUDANÇAS POLÍTICAS NO REINADO

Mas os 70 anos de Elizabeth como rainha -a mais longeva da história britânica- também foram marcados por várias mudanças políticas em seu reinado. Quando assumiu o trono, por exemplo, ela era chefe de Estado de 32 países, mas entre referendos e independências, morreu chefiando 15 nações e sendo soberana de 150 milhões de pessoas. Em todos os casos, porém, seu poder era apenas simbólico.

Ainda assim, Elizabeth tentava manter sua influência. A ferramenta principal para isso era a Commonwealth [grupo de 56 países que reúne majoritariamente ex-colônias britânicas]. Ela usava a organização para manter laços econômicos, diplomáticos e culturais com as ex-colônias. Em 2019, seu filho e agora rei, Charles 3º, assumiu a liderança do bloco.

Paralelamente, no Reino Unido, a rainha nomeou 15 primeiros-ministros, sendo 12 homens e três mulheres. O primeiro foi Winston Churchill e a última, Liz Truss.

No cenário geopolítico, de forma sempre discreta, Elizabeth viu a Europa se reconstruir após a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a Guerra Fria, viu o homem ir à Lua, chocou-se com o avanço do terrorismo no continente europeu -inclusive em seu país- e morreu condenando as consequências do conflito na Ucrânia.

Mas, em pelo menos um tema específico, ela abandonou a discrição: o enfrentamento às mudanças climáticas. Em outubro do ano passado, microfones captaram Elizabeth criticar líderes mundiais a sua nora, e agora rainha consorte, Camila. "É realmente irritante quando eles falam, mas não agem", afirmou.