Reino desunido e rejeição da monarquia em ex-colônias rondam sucessão de Elizabeth II

Quem vê tamanha mobilização em torno das comemorações pelas sete décadas do reinado de Elizabeth II — o mais longo da história do país — jamais diria que há algo de errado neste reino. Nos quatro dias do feriado criado especialmente para a ocasião, a face da monarca é a imagem inequívoca da grandeza e união do velho Império Britânico. Mas os festejos, que terminam hoje e marcam também o primeiro verão sem restrições sanitárias após a pandemia, encobrem uma sociedade cada vez menos unida.

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As quatro “nações” britânicas — Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte — passaram os últimos dias em festa. Mas vivem às turras há anos. Não se sabe até quando serão parte de um só país. Escoceses, norte-irlandeses e galeses consideram cada vez mais seriamente tomar o seu próprio rumo, longe dos desígnios de Londres.

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Se as celebrações se estenderam também pelos 54 países da chamada Comunidade Britânica, não quer dizer que estejam felizes tampouco. Muitos questionam o passado colonial e a existência de um chefe de Estado que não seja escolhido pelo voto — como é o caso de 14 entre eles. Destes, pelo menos seis (Belize, Bahamas, Jamaica, Granada, Antígua e Barbuda e São Cristóvão e Névis) já avisaram que não mais pretendem ter o monarca britânico como seu chefe de Estado, décadas depois de terem conquistado sua independência.

Em novembro do ano passado, após quatro séculos da chegada do primeiro navio inglês a seu território, Barbados foi o primeiro a fazê-lo. Maurício, uma ilha no Oceano Índico, proclamou-se república, embora siga na Comunidade Britânica, que é a associação de antigas colônias, abrigando hoje 2,5 bilhões de pessoas. A Jamaica deve ser o próximo.

Protesto rastafári

Prestes a completar 60 anos de independência do Reino Unido, o país do Caribe deu início a um processo de reforma constitucional para se tornar república e adotar um chefe de Estado escolhido pela população. O governo local já indicou um nome do Executivo para ficar a cargo da transição.

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Há décadas os jamaicanos pedem uma retratação dos britânicos pelas atrocidades cometidas durante os 300 anos em que mantiveram o país como colônia. Em março deste ano, durante a visita do príncipe William, segundo na linha sucessória, e a mulher Kate Middleton, por ocasião do jubileu da rainha, dezenas de pessoas protestaram na capital Kingston, em frente ao Alto Comissariado Britânico. Entoavam canções tradicionais rastafári e empunhavam cartazes com a frase “seh yuh yuh sorry” (frase em patoá jamaicano que insta o Reino Unido a se desculpar).

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Em périplo semelhante na mesma época por cinco ilhas do Caribe, o príncipe Edward, filho mais jovem da monarca, e sua mulher Sofia também foram recebidos com protestos. A recepção amarga levou o casal a adiar a passagem prevista por Granada. Em 1999, a Austrália, outro integrante da Comunidade Britânica que tem a rainha como chefe se Estado, realizou plebiscito para consultar a população sobre a possibilidade de se tornar república. As pesquisas de opinião, à época, revelavam uma maioria republicana no país. Mas divisões entre os republicanos prejudicaram a campanha. Manteve-se, então, o status quo.

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Em quase um século de vida, Elizabeth II viu o império como recebeu do pai, George VI, desaparecer, e o país entrar e sair da União Europeia (UE). Agora, mais do que nunca, existe a ameaça de se tornar uma ilha menor. Esta, dizem pessoas próximas da monarca, é uma das suas maiores preocupações.

Não por acaso, em 2014, pouco antes do plebiscito de independência realizado na Escócia, ela pediu “que as pessoas pensassem com muito cuidado sobre o futuro” antes de votar. Foi uma das raras vezes em que manifestou publicamente sua opinião sobre a política nacional. No referendo de setembro daquele ano, 55% dos escoceses acabaram optando por permanecer no Reino Unido. Mas a saída da UE, quase dois anos depois, aumentou a insatisfação geral. Os escoceses, majoritariamente contra o Brexit, foram voto vencido. Eles também questionam a distribuição do Orçamento e competências dentro do Reino Unido. Líder do SNP, partido separatista que domina a cena política local há 15 anos, e chefe do executivo escocês, Nicola Sturgeon indica que a pressão não deve reduzir. Ela anunciou recentemente que está reservando 20 milhões de libras (R$ 119 milhões) para novo referendo em 2023.

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Na Irlanda do Norte, o partido nacionalista Sinn Féin, que acaba de ganhar maioria inédita de assentos no Parlamento local, quer se juntar à República da Irlanda. Até em Gales o debate sobre independência nunca foi tão forte, segundo o professor de história e política britânica do King’s College London Andrew Blick.

— O discurso de independência está em alta. E o Brexit explica só uma parte dessa tendência. O partido nacionalista trata do tema mais seriamente hoje do que nos últimos 10 anos — diz.

Realeza e política

Ao destacar a frágil unidade do país no momento, o especialista lembra que a Coroa, nos últimos séculos, foi o amálgama que manteve a coesão do reino. Garantiu a entrada do País de Gales no século XVI e da Escócia, no século XVIII. Tensões sempre existiram, reconhece. Mas avisa que Charles deve herdar um Reino Unido ainda mais pressionado, com nova demografia, que pode até questionar a existência da própria monarquia, segundo o professor.

— Não acho que seria diferente se o príncipe Charles fosse o rei. É claro que, se não fosse pelo jubileu, não haveria desculpa para festa. Óbvio, ter uma rainha familiar e amada ajuda a manter unificado um Estado desigual como o Reino Unido. Mas as relações da Irlanda do Norte e da Escócia com Westminster (sede do Parlamento em Londres) são mais determinantes do que aquelas com o Palácio de Buckingham. Afinal de contas, mesmo que se torne independente, a Escócia provavelmente manterá a Coroa, a despeito do seu dono — ressaltou Pippa Catterall, historiadora da Universidade de Westminster.

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Desde o Brexit, o Reino Unido tem enfatizado e investido na figura da Comunidade Britânica para mostrar que tem alcance além da UE. O país, porém, tem dificuldade em lidar com os muitos erros do passado colonial, de um império que chegou a ocupar um quarto do território do planeta. A cobrança cresceu depois que o movimento Black Lives Matter ganhou força pelo mundo. Na Inglaterra, culminou com a vandalização da estátua de Edward Colson, traficante de escravos do século XVII, que foi arremessada no Porto de Bristol. Desde então, museus e outras instituições passaram a repensar suas relações com a memória do passado, o que, para especialistas, está longe de ser suficiente.

Continuidade

Para Laura Clancy, da Universidade de Lancaster, o debate sobre a história do colonialismo britânico não deve mudar após o reinado de Elizabeth II. Para ela, o tema tem mais a ver com a instituição da monarquia como um todo.

— Mesmo depois do reinado dela, Charles assumirá e a instituição será mantida, como sempre foi e, claro, como foi durante o período do Império Britânico — disse a professora, que é autora do livro “Running the Family Firm: how the monarchy manages its image and our money” (“Administrando a firma da família: como a monarquia gere sua imagem e nosso dinheiro”), de 2021.

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Para Clancy, a relutância britânica de enfrentar o seu passado é uma questão mais ampla, que tem a ver com a falta de educação nas escolas sobre o que foi o império. Além disso, as ideologias colonialistas foram abraçadas pelo atual Partido Conservador e outros segmentos da sociedade.

— Por isso, acho, e espero, que debates sobre o republicanismo sejam mantidos mundo afora, mas não sei se o fim do reinado de Elizabeth II vai mudar o entendimento britânico dessas histórias colonialistas, considerando que nada vai mudar muito em termos de simbolismo da monarquia no seu contexto mais amplo — afirmou Clancy.

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