Reino Unido aumentará seu arsenal nuclear pela primera vez desde a Guerra Fria

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LONDRES — O governo britânico anunciou um aumento de cerca de 40% no seu arsenal de ogivas atômicas, passando das atuais 180 para 260, como parte de uma ampla reforma nas diretrizes de Defesa nacional.

O documento, de cerca de 100 páginas, foi revelado nesta terça-feira, e traça, além do aumento do número de armas nucleares, um dos movimentos mais significativos no contexto pós-Guerra Fria, uma preocupação com atores estatais e não estatais mais fortalecidos.

“Alguns Estados estão aumentando de forma significativa e diversificando seus arsenais nucleares. O aumento na competição global, desafios à ordem internacional e a proliferação de tecnologias potencialmente problemáticas são uma ameaça à estabilidade estratégica — diz o texto.

Além de elevar o número de ogivas, o Reino Unido quer modernizar suas armas para que possam ser utilizadas em quatro novos submarinos nucleares, que entram em operação até 2030. Hoje, o único método de lançamento das ogivas pelos britânicos é através de submarinos nucleares, em um sistema conhecido como Trident.

Londres se diz a favor da “manutenção de um poder destrutivo mínimo, necessário para garantir que a dissuasão nuclear do Reino Unido siga crível e eficaz contra a ampla gama de ameaças nucleares estatais vindas de qualquer direção”. Ao mesmo tempo, afirma estar em busca da redução dos arsenais globais — e mira diretamente na China, que hoje tem cerca de 320 ogivas.

— Estamos comprometidos com a redução das armas nucleares, e acreditamos que a China deve ser trazida a uma redução de armas nucleares estratégicas — declarou o premier Boris Johnson, ao apresentar o plano no Parlamento.

A decisão provocou críticas horas depois de ter sido revelada. O grupo de líderes conhecido como The Elders, fundado por Nelson Mandela para promover a paz e os direitos humanos, afirmou que Londres deveria apostar na diplomacia, e não no armamentismo.

— O Reino Unido cita o aumento das ameaças à segurança como justificativa para essa medida, mas a resposta adequada deveria ser o trabalho multilateral para fortalecer os acordos de controle de armas e reduzir, não aumentar, os arsenais existentes — afirmou a presidente do grupo, Mary Robinson.

No Twitter, o chanceler do Irã, Javad Zarif, ironizou o anúncio:

“Na maior hipocrisia, Boris Johnson diz estar ‘preocupado com o desenvolvimento de uma arma nuclear pelo Irã’. No mesmo dia, anuncia que seu país vai aumentar o arsenal de armas nucleares”, escreveu Zarif. Nesta terça, Johnson afirmou, no Parlamento, que uma de suas preocupações era com um Irã nuclear. O Reino Unido faz parte do acordo que rege as atividades atômicas iranianas, mas que hoje se encontra praticamente suspenso por conta da saída dos EUA do plano, em 2018.