Reino Unido deve desculpas por adoções forçadas de 185.000 filhos de mães solo no pós-guerra, diz comissão

Uma comissão parlamentar britânica de direitos humanos pediu nesta sexta-feira ao governo de Londres que emita um pedido oficial de desculpas pelos filhos de mães solo entregues à força para adoção no pós-guerra. Cerca de 185.000 crianças nascidas fora do casamento foram tiradas de suas mães entre 1949 e 1976 na Inglaterra e no País de Gales, de acordo com o relatório da comissão.

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"Os bebês foram tirados de mães que não queriam que eles fossem", denuncia o relatório, acrescentado: "As mulheres foram informadas de que haviam dado seus bebês para adoção quando, na verdade, sentiram que não tinham outra escolha."

De acordo com os depoimentos coletados, foram negados analgésicos às mães como um "castigo". Às vezes, seus recém-nascidos eram imediatamente tirados delas para adoção.

— Um médico me disse que eu deveria ser esterilizada porque só podia ser ninfomaníaca — explicou uma mãe à comissão.

O vínculo entre mães e filhos foi "rompido abruptamente" por meio de adoções que "nunca deveriam ter acontecido", disse a presidente da comissão, a parlamentar trabalhista Harriet Harman.

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— O único 'crime' dessas mães foi engravidar sem se casar. Sua 'condenação' foi uma vida de segredo e dor — denunciou.

Denúncia de ONG

Sem comentar a questão das desculpas públicas, um porta-voz do governo destacou as melhorias legislativas realizadas desde então. Mas, segundo ONGs especializadas, o fenômeno continua.

— As desculpas pelas adoções forçadas do passado deveriam ter sido pedidas há muito tempo. Mas o escândalo está longe de terminar — afirmou Anne Neale, chefe da Action for Women.

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Pais e associações lamentam que a lei britânica se concentre apenas no bem-estar das crianças, ignorando o trauma e a violência sofridas pelas mães. Sarah, da cidade escocesa de Fife, perdeu permanentemente a custódia de sua filha quando fugiu de um relacionamento abusivo.

— Tentei me matar três vezes, só não queria continuar neste mundo. Estou deprimida. Estou de luto. É a necessidade de abraçá-la, de ser mãe, e não poder. É a pior sensação do mundo. É como se eu estivesse sendo punida por ser maltratada — relatou.

Tudo o que resta de sua filha são fotos.

Neale diz que o medo de que seus filhos sejam colocados para adoção impede que algumas mães procurem ajuda quando se encontram em situações difíceis.

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"Bola de cristal"

Os diferentes países europeus impõem condições mais ou menos estritas para autorizar uma adoção sem o consentimento dos pais biológicos. Mas, de acordo com Claire Fenton-Glynn, professora da Universidade de Cambridge, "poucos – se é que algum país – exercem esse poder tanto quanto as cortes inglesas".

As adoções nacionais – com ou sem consentimento dos pais – foram 5.050 em 2013 na Inglaterra e no País de Gales, em comparação com 3.293 na Alemanha e 730 na França, segundo um estudo europeu. Na Espanha, estatísticas oficiais apontam que 770 crianças foram adotadas em 2013, um número excepcionalmente alto comparado com 525 em 2014 e 542 em 2020.

Nos últimos quatro anos, uma média de 1.500 crianças foram adotadas anualmente contra a vontade de seus pais biológicos no Reino Unido, segundo dados do governo britânico.

A lei estabelece que um juiz só precisa estar convencido de que existe um risco de dano futuro para aprovar a retirada da custódia, sem necessidade de que sejam apresentadas evidências de abuso ou negligência. As mães denunciam uma política de "bola de cristal".

— No direito de família, você é culpado até que se prove inocente — afirma Sue Callaghan, que escreveu um livro, "Taken", sobre a luta para impedir que seus filhos fossem tirados dela.

— Embora tenha muita simpatia pelas mães que enfrentam inúmeros problemas, nossa legislação se baseia no que é melhor para a criança — explica Julie Selwyn, professora de educação e adoção da Universidade de Oxford. — Esse é o dilema.

Alguns assistentes sociais e ativistas também se perguntam o que pode acontecer quando crianças adotadas descobrirem, já adultas, que seus pais biológicos não queriam colocá-las para adoção.

— Vai ser um escândalo — aponta a assistente social e acadêmica Brid Featherstone.

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