Reino Unido mantém China em proximidade segura em novo plano estratégico

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Apesar de crescentes restrições de conservadores britânicos à China, o governo do Reino Unido está decidido a se relacionar com o país asiático, mostra a nova estratégia de segurança, defesa, desenvolvimento e política externa apresentada nesta terça (17) pelo premiê britânico, Boris Johnson. Enquanto a Rússia é caracterizada como rival estratégico e Estado hostil no documento, chamado de Revisão Integrada, a China é apresentada como "desafio sistêmico". O texto usa uma linguagem cautelosa para se referir ao gigante asiático e uma abordagem aparentemente contraditória, que, para analistas, é proposital. "O fato de a China ser um estado autoritário, com valores diferentes dos nossos, apresenta desafios para o Reino Unido e nossos aliados. A China contribuirá mais para o crescimento global do que qualquer outro país na próxima década, com benefícios para a economia global", afirma o documento. Segundo Sophia Gaston, diretora do BFPG (British Foreign Policy Group, um centro de estudos britânico apartidário), o relacionamento britânico com a China "continuará complicado e estreitamente alinhado com a abordagem do governo do presidente americano Joe Biden". No discurso em que apresentou a estratégia ao Parlamento, Boris citou críticas feitas pelo governo britânico à detenção em massa do povo uigur na província de Xinjiang e a oferta de cidadania britânica feita a quase 3 milhões de habitantes de Hong Kong, mas deixou claro que enxerga a China como parceira. "Trabalharemos com a China onde isso for consistente com nossos valores e interesses, incluindo a construção de uma relação econômica mais forte e positiva e na abordagem da mudança climática." Com 114 páginas, o objetivo da revisão é projetar o lugar global do Reino Unido em 2030 e como pretende chegar lá. O documento fala em cooperação e colaboração, mas algumas áreas sugerem "caminhos acidentados à frente nas relações internacionais", segundo Gaston, e não só pela abordagem "equilibrada" em relação à China. Ela cita entre outros exemplos a disputa por espaço na política externa com a União Europeia, da qual o Reino Unido se divorciou definitivamente neste ano. Boris afirmou que o Reino Unido terá que exercer um "crescente ativismo internacional" para enfrentar um mundo mais competitivo, "onde novas potências estão usando todas as ferramentas à sua disposição para redefinir a ordem internacional e, em alguns casos, minar o sistema internacional aberto e liberal". De acordo com o premiê, o país não pode depender exclusivamente de um sistema internacional cada vez mais desatualizado para proteger seus interesses. Um dos pilares dessa visão é o programa de investimentos extras de 24 bilhões (R$ 186 bi, ao câmbio atual) em defesa, o maior desde o fim da Guerra Fria, apresentado em novembro. O documento reafirma a importância da Otan (aliança militar entre países da Europa e América do Norte), mas a maior parte dos recursos de defesa irá para pesquisa e desenvolvimento, segurança cibernética e a modernização da Marinha e da Força Aérea Real. Boris também planeja lançar um foguete britânico ao espaço. O documento revoga uma promessa anterior de reduzir o estoque de armas nucleares para 180 ogivas, elevando o limite para até 260. A ênfase no Exército é menor -o governo britânico conta com potências europeias como a Alemanha para reforçarem a segurança terrestre da Otan. Isso pode elevar a preocupação de parceiros do Reino Unido na aliança, de que Boris retire soldados da Força-Tarefa Conjunta de Muito Alta Prontidão, lançada em 2015, após a investida russa sobre a Ucrânia. No discurso ao Parlamento, o premiê citou a Rússia logo após anunciar a criação de um Centro de Operações Antiterrorismo, para "frustrar os projetos de terroristas, ao mesmo tempo em lidar com as ações de Estados hostis". "Passaram-se quase exatamente três anos desde que o Estado russo usou uma arma química em Salisbury, matando uma mãe inocente, Dawn Sturgess, e trazendo o medo para uma cidade tranquila", disse ele. A visão de longo prazo britânica também aponta a proa para a região do Indo-Pacífico, que descreve como "cada vez mais o centro geopolítico do mundo". "A partir da base segura da Otan, procuraremos amigos e parceiros onde quer que eles possam ser encontrados", disse o premiê em discurso no Parlamento. O Reino Unido é candidato a parceiro na Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático) e, no próximo mês, Boris fará sua primeira grande visita internacional pós-brexit à Índia, país que ele fez questão de chamar de "maior democracia do mundo" -embora diversas organizações tenham rebaixado o grau de liberdade política e civil indiano nos últimos dois anos. Boris também citou no discurso o envio do novo porta-aviões britânico, HMS Queen Elizabeth, ao oceano Índico ainda este ano, transportando jatos F35 da Marinha americana. No leste asiático, o porta-aviões fará exercícios conjuntos com o Japão, entre outros. O documento não menciona disputas territoriais que envolvem a China na região, principalmente no mar do Sul da China. Em comentário à revisão, porém, o Partido Conservador foi mais explícito: "A crescente assertividade internacional da China e a crescente importância do Indo-Pacífico exigem que adotemos uma nova abordagem, mudando nosso foco nesta região do mundo. Usaremos nossos meios econômicos, comerciais, de defesa e diplomáticos para ajudar a promover a estabilidade e a prosperidade". Na avaliação de Gaston, porém, a integração com a Ásia deve passar menos por defesa e segurança e mais por comércio, principalmente por meio do CPTPP (Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica, que substituiu o TTP após a saída dos EUA). O Reino Unido é candidato a integrar a aliança que reúne hoje Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietnã. O governo britânico deve buscar "relacionamentos baseados em interesses comuns, mais do que em valores comuns", afirmou a cientista política, e a presidência do grupo de países ricos G7 e a organização da conferência climática COP-26, que estão nas mãos do Reino Unido neste ano, servirão como testes dessa nova ambição diplomática.