Reino Unido recorre a necrotérios improvisados para vítimas de covid-19

William EDWARDS con Callum PATON en Londres
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Painel eletrônico em rua de Londres exibe nível de alerta atual de coronavírus, em 17 de dezembro de 2020

Dezenas de corpos chegam todos os dias a esta tenda branca, um necrotério improvisado instalado em meio a uma esplanada de Epsom, no sul da Inglaterra, em um país com hospitais lotados pelo novo coronavírus.

O Reino Unido está sendo duramente atingido por uma variante da covid-19 considerada mais contagiosa e que fez os casos e a mortalidade dispararem. Na última sexta-feira (8), 1.325 mortes foram registradas em 24 horas, algo nunca visto desde o início da crise.

Essa situação colocou os hospitais sob grande pressão, tanto em suas unidades de terapia intensiva quanto em seus necrotérios. O mesmo aconteceu com o setor funerário.

Diante da falta de vagas, o necrotério temporário de Epsom no condado de Surrey, a sudoeste de Londres, abriga 170 corpos, mais da metade deles vítimas da covid-19, de acordo com a prefeitura.

Se as 1.400 vagas temporárias não forem suficientes nas próximas semanas, o condado estaria em "sérias dificuldades", advertiu um porta-voz do Local Resilience Foram, de Surrey, criado para coordenar a resposta das autoridades locais à pandemia.

Em março passado, quando este necrotério foi instalado em um centro de reabilitação, em 12 semanas 700 corpos passaram por ali.

Comparativamente, "desde 21 de dezembro, após apenas duas semanas e meia, 300 corpos passaram" por este necrotério provisório, completou o porta-voz.

Em Londres, as autoridades sanitárias consideram que, em alguns lugares, uma pessoa em cada 20 está infectada com o novo coronavírus, muito mais do que a média nacional - já alta - de uma pessoa a cada 50.

Esse quadro levou à instalação de um novo necrotério temporário perto do crematório Breakspear, no noroeste de Londres, para "completar a capacidade existente", disse um porta-voz das autoridades locais à AFP. Ele ainda não está operacional.

Por enquanto, na capital, nesta segunda vaga onda, ainda não foi necessário recorrer aos outros necrotérios provisórios habilitados no início da pandemia, lembrou o porta-voz.

"Os necrotérios de Londres enfrentam e cooperam entre si para aliviar as pressões localizadas. Os enterros continuam sendo organizados em toda capital", afirmou a mesma fonte.

- Fluxo em massa -

Deborah Smith, porta-voz de uma associação de funerárias, a National Funeral Directors Association, disse à AFP que o país discute se é necessário recorrer a depósitos temporários.

Como explicou, seu setor tem de enfrentar três desafios: o aumento das mortes, devido à covid-19; as taxas de mortalidade, que em geral são mais altas no inverno; e a probabilidade de os funcionários adoeçam.

"Os números são mais altos, a sensação de incerteza também", afirmou Smith, acrescentando que "não sabemos por quanto tempo os números continuarão a aumentar até voltaram a diminuir".

Siraj Qazi, diretor do Serviço Funeral de Ghousia, um necrotério da comunidade muçulmana em Luton, a 32 quilômetros ao norte de Londres, observou um "fluxo em massa" nas últimas semanas.

Os níveis de hoje beiram os de março e abril, quando se registrou o pico da primeira onda e sua empresa quase ficou sobrecarregada.

O Reino Unido é o país da Europa mais atingido pela pandemia, com quase 82.000 mortos. Seus serviços de saúde estão-se preparando para as "piores semanas da pandemia", alertou o médico-chefe da Inglaterra, Chris Whitty.

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