Rejeição a Crivella invade base eleitoral evangélica de prefeito

ITALO NOGUEIRA
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*ARQUIVO* Rio de Janeiro, RJ, BRASIL. 26/02/2019 - Entrevista com o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. ( Foto: Ricardo Borges/Folhapress)
*ARQUIVO* Rio de Janeiro, RJ, BRASIL. 26/02/2019 - Entrevista com o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. ( Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Alvo de ações sob acusação de beneficiar grupos evangélicos, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), vê a rejeição a sua candidatura à reeleição invadir sua base eleitoral entre os cristãos.

Bispo licenciado da Igreja Universal, o prefeito é rejeitado por 38% dos evangélicos, segundo pesquisa Datafolha divulgada no dia 22. O número é menor do que os 58% no eleitorado como um todo, mas representa mais de um terço no grupo religioso. No geral, tem 13% das intenções de voto.

O cenário fez com que Crivella reforçasse o vínculo religioso de sua candidatura, estratégia pública oposta àquela que adotou em todas as eleições majoritárias em que acumulou derrotas desde 2004.

Nas eleições anteriores, o prefeito sempre buscou se desvincular da Igreja Universal e de seu passado como bispo. Com o novo cenário político após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, Crivella tem repetido as menções a Deus e religião.

A rejeição de parcela expressiva dos evangélicos ocorre após uma gestão na qual o candidato do Republicanos foi sucessivamente acusado de beneficiar fiéis de seu credo. Crivella é alvo de duas ações civis públicas movidas pelo Ministério Público e enfrentou pedido de impeachment sobre o tema.

A primeira ação foi proposta em 2018 e narra nove situações nas quais, segundo a Promotoria, o prefeito favoreceu grupos evangélicos.

"Observa-se uma tendência do demandado [Crivella], atual administrador municipal, em privilegiar determinado seguimento religioso, bem como, de forma sutil, perscrutar informações a respeito da religião professada pela população e pelo funcionalismo público", afirma a ação.

O processo, ainda não julgado, inclui o episódio conhecido como "Fala com a Márcia". Trata-se da uma reunião no Palácio da Cidade na qual ele oferecia privilégios a líderes de igrejas evangélicas em demandas de serviços públicos.

A ação também trata de censos religiosos feitos dentro de órgãos públicos e do uso da estrutura municipal para eventos da Universal. "Parece crível que espaços públicos administrados pelo município passaram a ser uma extensão dos templos da Igreja Universal do Reino de Deus", diz o MP-RJ.

No mês passado, Crivella foi alvo de nova ação civil pública, na qual foi acusado de ceder ilegalmente um terreno do município para projeto da igreja evangélica Marca de Cristo. Além da cessão, a prefeitura realizou obras no local, segundo a Promotoria.

Uma das peças desta ação revela estratégia de Crivella nos bastidores da pré-campanha: a participação intensa na inauguração de igrejas ou espaços a elas vinculados.

Os supostos benefícios não geraram um retorno eleitoral ao prefeito. Com uma administração mal avaliada, ele corre o risco de ficar fora do segundo turno da disputa.

O nível de rejeição sempre foi um dos empecilhos de suas tentativas eleitorais majoritárias até 2016, quando sempre via a candidatura desidratar até a data do primeiro turno.

Em 2008, sua rejeição no início da campanha era de 31%, sendo 10% entre os evangélicos pentecostais, dos quais fiéis da Universal fazem parte, e 17% dos não pentecostais. Oito anos depois, 22% declaravam que não votariam no bispo licenciado, sendo 7% entre pentecostais e 11% entre não pentecostais.

Na eleição de 2016, o fato de enfrentar um adversário marcadamente de esquerda como Marcelo Freixo (PSOL) fez com que ele adquirisse um apoio maciço entre evangélicos, o que não havia conseguido nas disputas anteriores.

Às vésperas do segundo turno, 92% dos evangélicos pentecostais e 80% dos não pentecostais declararam que votariam em Crivella, segundo o Datafolha. Neste ano, o prefeito segue tendo seu principal eleitorado entre os cristãos. Mas o nível está bem diferente do identificado há quatro anos: apenas 28% afirmam que votam em Crivella.

Algumas lideranças evangélicas evitam se engajar na campanha de Crivella em razão da boa relação construída com Eduardo Paes durante a gestão do candidato do DEM (2009-2016). Entre algumas das ações do ex-prefeito está o financiamento de algumas edições da Marcha para Jesus.

O ex-prefeito tem 23% das intenções de voto entre evangélicos, sendo rejeitado por 43% nesse grupo, percentual maior do que os 31% no eleitorado em geral.

Uma das estratégias de Crivella agora é colar sua imagem à do presidente. Após declaração de apoio constrangida de Bolsonaro --que incluiu até um elogio a Paes (DEM), que lidera as pesquisas--, o prefeito conseguiu gravar um vídeo ao lado do presidente para exibir na reta final de campanha do primeiro turno.

Em nota, a campanha de Crivella negou qualquer benefício a evangélicos em sua administração. E reenviou frases do prefeito numa entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo em setembro de 2019.

"Sou um bispo evangélico. Tudo o que digo, absolutamente tudo, já traz uma ideia ao repórter de que ali está falando o bispo com posições bíblicas. Se você for a um culto meu na igreja, com certeza vai me ouvir pregar o Evangelho. Mas aqui, na prefeitura, não", afirmou ele na ocasião.