Rejeitada pelo pai, travesti que mora em ponto de ônibus quer 'dignidade de volta'

Diego Amorim
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Equipe da prefeitura ofereceu acolhimento para moradora

"Eu não quero nada por caridade, por pena de mim. Quer me dar alguma coisa? Me dê um emprego para eu ter de volta a minha dignidade, como já dizia a minha mãe." O pedido é da moradora em situação de rua Carmem, de 37 anos. A travesti — que foi registrada com o nome de Luiz Rodrigo de Noronha — é dona do quarto improvisado embaixo de um ponto de ônibus na Praça Nossa Senhora do Amparo, em Cascadura, Zona Norte do Rio, flagrado pelo EXTRA.

— Você tem que se amar, cuidar de si mesma. Não importa se você está na rua ou em qualquer outro lugar. Quero me virar por minha própria conta. Isso aqui não é um exibicionismo para as pessoas verem e tirarem fotos. Só tento oferecer o melhor para mim, o que está ao meu alcance. Não sou infeliz. Não sofro por esperar minha quentinha chegar ou por precisar de uma ajuda — diz a travesti, que é portadora do vírus HIV e que já trabalhou como diarista e faxineira.

Carmem nasceu em Belém, no Pará. No Rio, estudou até o Ensino Médio, mas não chegou a concluir o último ano. Brigas de família, há cerca de dez anos, a fizeram ir morar nas ruas da cidade. Segundo ela, o autoritarismo do pai militar e também a não aceitação em casa foram os principais motivos para a tomada de decisão de ir para as ruas.

— Meu pai é capitão do Exército e nunca aceitou o meu estilo de vida. Ele tem o raciocínio dele, e eu tenho o meu. Para ele, minha ideologia é coisa de quem não quer nada, de quem é irresponsável. Mas não o julgo, sei que a mente é de outra época e de uma outra geração.

 

Na manhã desta quarta-feira, uma equipe de abordagem da Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) do Rio esteve no local para oferecer o acolhimento, que não foi aceito. Os três agentes da prefeitura chegaram por volta das 10h e conversaram com o travesti durante cerca de 15 minutos. Carmem recusou o abrigo.

— Abrigos de prefeitura, em qualquer lugar, são um descaso, mal cuidados. Lá, eu não sei o que vou encontrar. Não é todo mundo que sabe lidar com homossexuais, então eu prefiro ficar na rua. Não sei o que vou encontrar lá (no abrigo), é briga toda hora. De repente você está dormindo, e alguém pode tentar abusar de você — diz Carmen.

Aos agentes da SMASDH, a moradora em situação de rua garantiu que iria procurar um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) para atualizar o cadastro do benefício do Bolsa Família.

Na praça, Carmem prefere ficar distante dos outros moradores.

— Eu conheço e falo com todo mundo, mas eles ficam lá e eu aqui. Cada um tem uma cabeça e pensa de um jeito. Ainda tem aqueles que, por estarmos na mesma situação, têm o direito de te sacanear ou de criar alguma intimidade que não existe. Até colocar esses princípios na cabeça das pessoas, é melhor cada um ficar quieto no seu canto.

A travesti conta que a própria aceitação sempre foi bem resolvida.

— A gente não pode viver uma fantasia. Nesta encarnação eu não sou uma mulher. Nasci homem, vou morrer homem. Mas minha sexualidade é essa, eu gosto de me vestir de mulher. Só fiz o ajuste do nome social, porque uso roupas femininas e não ficaria bem ser chamada de Luiz.

Nesta quarta-feira, todos que passavam pela Praça Nossa Senhora do Amparo, em Cascadura, olhavam em direção ao ponto de ônibus onde, há cerca de um mês, a moradora em situação de rua montou um quarto improvisado no local, com direto a cama, tapete, colcha, poltrona, travesseiro, flores, cômoda, lixeira e quadro na parede.

Segundo nota da SMASDH, a secretaria “trabalha em consonância com a Política Nacional de Assistência Social e as suas diretrizes, que incluem a abordagem social e acolhimento". Ainda de acordo com a pasta, foi constatado que Carmem passou por abrigos e que já participou de ações de aproximação realizadas pela prefeitura.