Relógio quebrado durante invasão em Brasília não marcava “13h30”; peça histórica não funcionava

Não é verdade que o relógio histórico de Dom João VI, quebrado em 8 de janeiro de 2023 durante a invasão à Praça dos Três Poderes, em Brasília, marcava 13h30 ou 12h25 quando foi danificado por um manifestante que usava uma camiseta com o rosto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo publicações compartilhadas mais de 5 mil vezes desde 16 de janeiro, o homem seria um “infiltrado da esquerda”, já que teria quebrado a peça antes da invasão dos apoiadores do ex-mandatário, que começou por volta de 15h. Mas a peça histórica não funcionava e câmeras de segurança registraram a cena às 15h33.

“A invasão no Capitólio tupiniquim começou as 15:00; o infiltrado disfarçado de bolsonarista quebra um relógio marcando 13:30 e posa em frente a câmera com uma camiseta com a foto do Bolsonaro”, diz uma das publicações compartilhadas no Twitter.

Em algumas versões do conteúdo, alega-se que o relógio marcaria o horário de 12h25. O conteúdo circula também no Facebook, no Instagram, no TikTok e no Kwai.

Segundo as postagens, isso indicaria que o homem em questão era um “infiltrado” nos atos, já que a invasão somente teria começado por volta das 15h.

Captura de tela feita em 17 de janeiro de 2023 de uma publicação no Twitter ( .)

A alegação começou a circular depois que o programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu, em 15 de janeiro, imagens inéditas de câmeras de seguranças de dentro do Palácio do Planalto, que registraram os ataques (1, 2) de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023.

A reportagem exibida pelo programa de TV mostra um homem vestindo uma camisa com o rosto de Bolsonaro e que arremessa no chão um relógio de pêndulo do relojoeiro francês Balthazar Martinot. O objeto, do século XVII, foi um presente da corte francesa para Dom João VI.

No canto superior direito da tela, porém, as imagens das câmeras de segurança registram a data e o horário do momento em que a peça é arremessada no chão: 08-01-2023, às 15h, 33 minutos e 8 segundos.

A AFP também recebeu da Presidência da República as imagens das câmeras de segurança. Os registros mostram o mesmo horário exibido no Fantástico:

Imagens das câmeras de segurança enviadas à AFP em 16 de janeiro de 2023 pela Presidência da República mostram o momento em que o relógio histórico de Dom João VI é depredado em 8 de janeiro, às 15h33 ( Presidência da República)

Apesar de os ponteiros do relógio histórico aparentemente indicarem um horário anterior às 15h, a peça não funcionava, como informado ao AFP Checamos por Fabiana Carvalho de Oliveira, da Coordenação de Preservação de Bens Históricos e Artísticos, da Presidência da República:

“No sistema de gestão dos bens históricos e artísticos da Presidência da República, que foi preenchido em 2017, o estado de conservação do relógio já descrevia-o como um bem sem funcionamento”.

A informação também foi confirmada ao AFP Checamos pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República.

Por e-mail, a secretaria informou que o relógio de Balthazar Martinot “já não estava em funcionamento há pelo menos 10 anos. Por essa razão, não há como levar em consideração o horário marcado por ele nas imagens internas do Palácio do Planalto no dia 8 de janeiro”.

“A Secom esclarece ainda que no segundo mandato do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi realizada a tentativa de manutenção do relógio, sem sucesso, por se tratar de um objeto histórico e de difícil reparação”, acrescentou a pasta.