Relação abusiva no 'BBB 23' gera debate: mulher independente pode ser vítima? Um abusador pode mudar? Psicóloga esclarece

A relação tóxica entre Gabriel e Bruna Griphao no "Big Brother Brasil 23'' chamou atenção não só da produção do programa, que alertou o rapaz ao vivo sobre os perigos de como a história estava sendo conduzida, como também levantou um debate fora da casa. O que caracteriza um relacionamento abusivo? Mesmo mulheres aparentemente independentes podem ser vítimas de casos assim? Homens abusivos podem mudar seu comportamento? Como detectar os sinais e não mergulhar em histórias que podem acabar mal? A Psicóloga Danielle Pinheiro esclarece essas e outras dúvidas abaixo:

Bruna Griphao tem o perfil de uma mulher mais independente, dona de si, o que faz muita gente pensar que ela não se tornaria vítima de uma relação abusiva. É mais difícil detectar o problema em casos assim?

Como vivemos em uma sociedade machista, a menina já é criada de modo diferente. Crescemos vendo modelos em casa, nos filmes e nas novelas que são machistas. Essa questão da mulher independente é complexa porque, por mais que a mulher trabalhe, por exemplo, os comportamentos entre homens e mulheres são diferentes. Numa reunião profissional, quando um homem fala, todos param para prestar atenção. Já a mulher pode ser interrompida. Assim, nas diversas relações, ela sempre precisa estar disposta a compreender, abrir mão de alguma coisa. "Ah, ele não percebeu que fez isso. Ah, ele não queria ter feito isso'', mulheres costumam dizer. E quando veem, estão em uma relação abusiva. Porque a mulheres foram criadas para viver isso. E como estão muito acostumadas a ceder espaço, se começam a colocar limites, perguntam: "Ela não está sendo grossa''? Quando a mulher é mais enfática, é criticada. Precisa falar de modo doce, pausadamente, ouvir para só depois poder colocar seu ponto de vista. E pode ser PHD num assunto, mas se um homem não concorda, vai tentar desmerecê-la e ela vai precisar ter muito tato para reverter isso. Quando a mulher é independente, é claro que ela tem mais formas de lidar com o problema, como buscar uma terapia, por exemplo. Mas o abuso está presente em todas as classes sociais.

Em entrevista ao EXTRA, a mãe de Bruna disse que a filha já teve outras relações tóxicas. Ter vivido isso não deveria impedir uma pessoa de mergulhar em outra relação abusiva?

De modo algum, seu corpo até está acostumado com esse tipo de relação. Sendo porque já viu isso dentro de casa, com os pais, ou porque já viveu outro relacionamento parecido.

Numa relação de casal, como o abuso se manifesta de modo sutil?

Se a mulher relaxa, o outro se coloca por cima. Exemplos do dia a dia: quem vai fazer o almoço? Quem vai guardar a roupa? O homem sabe onde a roupa é guardada dentro da própria casa? Ou só se preocupa com sua vida profissional enquanto a mulher tem que cuidar da casa, da vida profissional, estar bem vestida, com unha feita... Nós, mulheres, demandamos muito tempo pra chegar no lugar do homem. E algumas ideias ainda são reproduzidas: que a gente tem que ser a compreensiva, deixar o homem achar que ele é quem manda, que a gente tem sempre que se adaptar...

Como a criação pode influenciar nisso?

Vamos pensar na criação de uma criança que ouve: ''Come mais um pouquinho'', mesmo quando ela diz que já está satisfeita. Ou "Veste o casaco'', mesmo a criança dizendo que não está com frio. Muitas vezes com gestos assim, você vai invalidando aquele ser. E ele vai acreditando só no outro. Acontece com meninos e meninas. Mas desde pequena, a mulher cede o espaço para um outro.

O rapaz envolvido na história, Gabriel, tem 24 anos. Podemos esperar que um cara que se mostra abusivo mude?

Eles podem ter histórias diversas que precisamos saber. Geralmente, quem abusa também é abusado. As duas pessoas podem mudar, é preciso ver que relação se estabelece entre eles. Mas a primeira coisa para isso acontecer é reconhecer que a mudança é efetivamente necessária.

Como reconhecer os limites dentro de uma relação assim?

O limite é a salvação da sua saúde mental. Ou vai vir depressão, ansiedade... A mulher vai achar que não é merecedora de ter uma relação saudável, vai fazendo cada vez mais coisas pra satisfazer o outro e uma coisa vai levando à outra. Vamos pensar em histórias que acabam na lei Maria da Penha. "Ah, por que a mulher não se separou logo?''. Porque esse mesmo homem que batia era legal com ela também em alguns momentos! Mas relação abusiva acontece toda vez que você invalida o outro de alguma forma, quando uma pessoa se sente superior à outra.

Um melhor amigo, um irmão, um primo querido pode ser um abusador. Como lidar com essas situações?

Como seres humanos, nós refletimos e falamos. O que é abuso para mim pode não ser pra você. Mas se você diz que está magoada com algo e a outra pessoa fala que isso é bobagem, está tendo postura de abusador. É preciso entrar num acordo. Padrão de comportamento a gente não muda de repente. A pessoa precisa se desculpar e realmente voltar atrás, repensar. Mas se o outro não se importa com o que você está sentindo... Abuso é nos sentirmos com nosso limites invadidos.

Quais são os sinais concretos de que podemos estar embarcando numa relação abusiva?

- Ofensas disfarçadas de brincadeiras: "Oh, minha chatinha bonitinha, vem aqui''.

- Invalidação de qualquer coisa de que gostamos: tipo de roupa, cor preferida pra usar...

- Quando nossas escolhas são colocadas em dúvida, inclusive as profissionais, questionando nossas capacidades.

- Necessidade de pisarmos em ovos quando estamos com a pessoa, medindo as palavras que usamos com receio se o outro vai gostar ou não. Precisamos ficar atentas ao nosso corpo e a nossas percepções.

- Ter nossos limites desrespeitados, esse é um importante sinal de alerta.

Danielle Pinheiro, de 46 anos, é Psicóloga especialista do Personare.