Relação com Brasil terá novo ritmo após esfriar com Bolsonaro, diz chanceler da Argentina

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 31.10.2022 - O presidente eleito, Lula, recebe a visita de Alberto Fernández (Presidente da Argentina) no Hotel Intercontinental, em São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 31.10.2022 - O presidente eleito, Lula, recebe a visita de Alberto Fernández (Presidente da Argentina) no Hotel Intercontinental, em São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O primeiro chefe de Estado a se encontrar com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a vitória nas eleições foi o presidente da Argentina, Alberto Fernández, o que, para seu chanceler, Santiago Cafiero, foi resultado de "coerência e amizade". Em ambiente pré-eleitoral, dado que os argentinos vão às urnas em 2023 para escolher seu próximo líder, o ministro afirma que a visita não teve propósitos eleitorais.

Após um período de esfriamento nas relações entre a Argentina e o Brasil sob Jair Bolsonaro (PL), o governo do país vizinho se mostra animado. "É injusto dizer que houve interrupção, as coisas caminharam de modo lento e reduzido, mas caminharam. Agora, queremos acelerar e aprofundar o desenvolvimento bilateral", disse Cafiero à Folha de S.Paulo, no Palácio San Martín, sede da chancelaria, em Buenos Aires.

PERGUNTA - Como foi decidida a viagem de Fernández ao Brasil?

SANTIAGO CAFIERO - Estávamos acompanhando os resultados com muita atenção, pela envergadura da eleição para nós e para a região. Quando ambos se falaram por telefone, quando Fernández ligou para Lula, foi natural o desejo de que ele fosse dar um abraço nele, os dois têm uma amizade pessoal. Não há especulação eleitoral aí. Assim como Fernández havia se engajado na libertação de Lula, visitando-o na prisão, sem pretensão de utilizar isso politicamente, nunca houve especulação nessa relação. Há amizade e admiração, foi isso que marcou a nossa viagem.

P. - Houve muita campanha anti-Argentina durante o atual governo brasileiro. Isso se refletiu na relação?

SC - Não, seria injusto dizer que a relação se interrompeu. Do ponto de vista das duas economias, do comércio, as coisas andaram normalmente, de modo pragmático. Numa velocidade mais lenta e em menor quantidade, sim, mas não parou. Agora o que nós queremos é empreender uma nova marcha nessa relação e vincular ambas as economias de modo mais potente, com base na ciência e na tecnologia.

P. - Como vê os blocos de integração regional?

SC - A Argentina está dando especial impulso à retomada da Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos). Sim, na Celac somos 33 países; o Brasil está ali, mas é o único a não ocupar seu espaço. Não foi embora formalmente, mas deixou de participar. É importante que tenha uma voz ativa, não só para a Argentina, mas para a região, assim como na Unasul [União de Nações Sul-Americanas]. Nossa prioridade é fortalecer o que já temos de mais profundo e duradouro na região, o Mercosul. Sei que ele é renegado por alguns, mas é preciso reconhecer que, mesmo em condições adversas e com diferenças políticas, continua funcionando. Obviamente, quando não há um entendimento mais profundo, ou uma melhor sintonização entre os governos, a velocidade é mais lenta.

Esperamos que, com a chegada de Lula, possamos avançar com o Mercosul. Estamos num modelo que entrou em crise em 2008, aprofundou-se com a pandemia e com a Guerra da Ucrânia. Queremos transformar a cadeia produtiva dos nossos países para incluir um valor agregado aos nossos produtos, não podemos ficar apenas nas matérias-primas. Precisamos agregar valor para agregar trabalho. O mundo nos está entregando essa oportunidade, e a afinidade política entre Brasil e Argentina nos entrega a possibilidade de transitar nesse caminho juntos.

P. - E as tentativas do Uruguai de fechar um tratado de livre comércio com a China, por fora do Mercosul?

SC - Até hoje não há nenhum documento preciso de estudo sobre um eventual tratado de livre comércio do Uruguai com a China, e o Mercosul tem uma agenda aberta. Ninguém irá bloquear a vontade do Uruguai. O que dizemos é que, se o fizer, que seja algo extensivo aos demais países-membros do bloco. Isso é essencial.

P. - Qual sua visão sobre a Venezuela?

SC - Há uma sensação na região de que Nicolás Maduro se favorece com o novo panorama geopolítico, marcado agora pela eleição de Lula. Não é correto ficarmos criticando ou apontando a culpa de dirigentes. É preciso ter uma abordagem de tom humanitário. É certo que a Venezuela atravessa uma crise humanitária potente, por isso há tanta imigração. O que precisamos é gerar as condições para que os venezuelanos, se quiserem, possam voltar a seu país e se desenvolver.

P. - A Argentina deixou de apoiar o líder opositor Juan Guaidó, como já fez a Colômbia e deve fazer o Brasil. O que mudou nesse panorama?

SC - A Argentina integrou, em seu governo anterior, o que era o Grupo de Lima, que foi se mostrando ineficiente para proporcionar soluções para os venezuelanos. Hoje, a Venezuela está transitando em um caminho de normalização. Há diferentes aspectos, é necessário avançar na defesa dos direitos humanos e na investigação de delitos contra os direitos humanos. A Venezuela precisa seguir as recomendações que todo o sistema internacional de direitos humanos lhe fez. E nossa visão é de que a Venezuela tem demonstrado fazer isso. Trata-se de um processo, não está resolvido, mas ele começou.

P. - Existe na Argentina o risco de uma fatia do eleitorado não aceitar o resultado da eleição do ano que vem, como está ocorrendo no Brasil?

SC - Sem traçar paralelismos com Brasil e EUA, a trajetória da Argentina é a de um país que completará, no ano que vem, 40 anos de democracia com espaço para que todas as forças políticas que desejem expressar seu projeto de país o façam. Vivemos com muito temor o atentado que se fez contra Cristina Kirchner. Foi um reflexo violento dos que querem ameaçar nosso sistema de representação pública. Mas isso foi muito pontual, e trabalhamos diariamente para que não exista nenhum tipo de escalada dessa situação. Não vejo hoje na Argentina nenhuma força política que não se expresse dentro dos valores da nossa democracia.

RAIO-X

Santiago Cafiero, 43 Chanceler da Argentina, foi até o ano passado chefe do Gabinete de Ministros do governo Fernández, órgão responsável pelo diálogo entre Executivo e Legislativo. Foi também subsecretário de Indústria, Comércio e Mineração. É graduado em ciência política pela Universidade de Buenos Aires e mestre em políticas públicas pela Universidade Torcuato di Tella.