Relatório da ONU acusa China de violar direitos humanos de minoria muçulmana em Xinjiang

Construção com aspecto de prisão
Foto de 2019 mostra prédios do Centro de Treinamento de Habilidades Profissionais de Artux City, o qual se acredita ser um campo de detenção

Em um relatório há muito tempo aguardado e finalmente publicado nesta quarta-feira (31/8), a Organização das Nações Unidas (ONU) acusou a China de cometer "graves violações dos direitos humanos" contra muçulmanos uigures e outras minorias étnicas na província de Xinjiang.

Anteriormente, a China pediu à ONU que não divulgasse o relatório — classificado por Pequim como uma "farsa" organizada pelas potências ocidentais.

O relatório avaliou acusações de abuso, as quais a China nega.

Os investigadores concluíram que há "evidências críveis" de tortura na província e que a China usa leis de segurança nacional vagas para reprimir os direitos das minorias e estabelecer um "sistema de detenção arbitrária" em massa. Prisioneiros são submetidos a "padrões de maus-tratos" que incluem "incidentes de violência sexual e de gênero", de acordo com o documento.

Algumas das vítimas são submetidas a tratamento médico forçado e à "aplicação discriminatória de políticas de planejamento familiar e de controle de natalidade".

A ONU recomendou que a China tome medidas imediatas para libertar "todos os indivíduos arbitrariamente privados de sua liberdade" e sugeriu que algumas das ações de Pequim podem ser consideradas "crimes contra a humanidade".

Bachelet admitiu pressão para não divulgar relatório

Várias pessoas com máscara segurando cartazes em praça durante o dia
Uigures protestam na Turquia pedindo notícias sobre seus parentes e proteção à minoria étnica

O relatório foi encomendado pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e divulgado no último dia de Michelle Bachelet à frente do órgão.

O gabinete de Bachelet na ACNUDH indicou há mais de um ano que uma investigação sobre alegações de genocídio em Xinjiang estava em andamento. Entretanto, a publicação foi adiada várias vezes, levantando acusações de algumas organizações ocidentais de direitos humanos de que Pequim estava pressionando para que o relatório, prejudicial à sua imagem, não fosse divulgado.

Em entrevista coletiva na quinta-feira passada, Bachelet admitiu que estava sob "tremenda pressão para publicar ou não publicar" o relatório, mas defendeu o atraso argumentando que buscar diálogo com Pequim não significava "fechar os olhos" para o conteúdo investigado.

A ONU diz ser incerto o número de pessoas detidas pelo governo chinês em Xinjiang, no nordeste da China, mas organizações independentes chegam a falar em mais de um milhão de pessoas.

Há cerca de 12 milhões de uigures, a maioria muçulmanos, vivendo em Xinjiang. A ONU disse que membros não-muçulmanos da etnia também podem ter sido afetados pelos abusos apontados no relatório.

No início deste ano, a BBC teve acesso a arquivos que revelaram um sistema organizado de estupro em massa, abuso sexual e tortura contra muçulmanos uigures em campos de detenção.

O governo chinês, que teve acesso ao relatório da ONU com antecedência, nega as acusações e argumenta que os campos de detenção são uma ferramenta para combater o extremismo islâmico. Pequim acusa militantes uigures de planejarem a formação de um Estado indepedente através de bombardeios, sabotagem e distúrbios cívicos.

A China também rejeita as acusações de que está tentando reduzir a população uigur por meio de esterilizações em massa e diz que as alegações de que a minoria sofre trabalho forçado são "completamente fabricadas".

- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62747368

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