Relatório sobre demografia é alerta para Brasil

Todo governante preocupado com o futuro precisa prestar atenção ao mais recente relatório das Nações Unidas a respeito da população global. Trata-se de um alerta sobre tendências demográficas que exigem decisões antecipadas em vários campos, como educação, saúde pública, arquitetura, urbanismo ou previdência.

A pandemia provocou queda na expectativa de vida entre 2019 e 2021, algo que não acontecia havia mais de meio século. No mundo, a esperança de vida ao nascer caiu 1,8 ano, de 72,8 para 71 anos. No Brasil, onde o impacto do coronavírus foi mais brutal, diminuiu 2,5, de 75,3 para 72,8 anos. Trata-se, é verdade, de um movimento passageiro, assim como aconteceu na pandemia da Gripe Espanhola. A ONU estima que a perda estará recuperada até 2025, em razão da vacinação e da queda de letalidade da Covid-19.

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A questão mais preocupante por aqui é outra. Pelo relatório da ONU, o Brasil, hoje com pouco mais de 210 milhões de habitantes, chegará ao auge demográfico em 2046, quando terá 231,1 milhões. A partir daí, a população começará a diminuir, como já vem acontecendo em vários países europeus. A ONU estima que, na virada do século, terá caído a 184,5 milhões, e o país estará fora da lista dos dez mais populosos. Ficará em 11°, atrás de Congo, Etiópia, Indonésia, Tanzânia e Egito.

A tendência já se faz sentir. Em breve, o Brasil perderá a sexta posição para a Nigéria, cujo crescimento demográfico é avassalador. Há 50 anos, os nigerianos eram 60% dos brasileiros. Em 2100, o país africano terá a terceira maior população do planeta, superado apenas por China e Índia (esta ultrapassará a China já em 2023).

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O movimento brasileiro resulta da queda na taxa de fecundidade. Nos anos 1950, cada mulher tinha em média cinco filhos. A taxa caiu para os atuais 2,3 e projeta-se 1,8 em 2100 (patamar que reduz a população). Contribuíram para isso a urbanização veloz, mudanças de costumes e o novo papel da mulher na sociedade. País outrora considerado “jovem”, o Brasil começa a entrar na “meia idade”. A expectativa de vida, hoje em 72,8 anos, subirá a 81,3 em 2050 — em 1950, era de 48.

Está perto do fim o bônus demográfico gerado quando a parcela em idade de trabalho, de 15 a 64 anos, cresce mais que a população. É uma situação que permite obter crescimento econômico com menor necessidade de capital. Mas, para aproveitá-la, é preciso qualificar a mão de obra por meio da educação, de modo a aumentar sua produtividade. Não há país desenvolvido que não tenha aproveitado seu bônus demográfico para se tornar rico.

No Brasil, ele começou a ser acumulado em 1970. Chegou ao ápice em 2020. Desde então, a parcela em idade ativa cresce menos que a população. Infelizmente, perdemos a maior oportunidade oferecida pela demografia, sobretudo em razão da dificuldade das lideranças em enxergá-la. Mas isso não significa que estejamos condenados ao fracasso econômico. Mais que nunca, serão necessárias reformas e políticas que aumentem a produtividade.

A própria demografia forçará em breve uma outra reforma da Previdência, porque haverá novamente um grande contingente de aposentados a pressionar o caixa do INSS. E, apesar de a maior parte do bônus demográfico estar perdida, é essencial não deixar escapar o que resta. O ciclo de crescimento da população ativa se esgotará por volta de 2040. Há muito a fazer até lá.

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