O que acontece agora após a aprovação do relatório da CPI da Covid?

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BRASILIA, BRAZIL - OCTOBER 20: Senator Renan Calheiros (R), CPI rapporteur investigating government actions to combat COVID-19, during a session at the during the session that will present the final investigation report on October 20, 2021 in Brasilia, Brazil. 11-member Brazilian Senate Pandemic Parliamentary Inquiry releases a report after months of investigation to determine responsibilities on mismanagement of the COVID-19 pandemic in Brazil.  (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Senadores durante trabalho da CPI da Covid. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Olhando pelo aspecto institucional, tem até um fundo de verdade a gargalhada oferecida por Flávio Bolsonaro ao imitar a reação do pai diante do relatório da CPI da Pandemia. Indiciado por nove crimes, Jair Bolsonaro tem em seu sistema de defesa dois paredões que, num jogo com prorrogação, o levou a rir primeiro.

Um deles é Arthur Lira (PP-AL), a quem delegou o papel de primeiro-ministro em troca de proteção. Outro é Augusto Aras, o procurador-geral da República por quem o presidente disse ter se apaixonado à primeira vista e nomeou fora da lista tríplice —com o endosso do Senado, que aprovou a indicação.

A dupla Lirauras tem aplicado em campo a tática de um velho bordão: chuta pro mato que o jogo é de campeonato.

Um joga assim por motivos óbvios. Poder e influência não é todo dia que se ganha.

Outro sonha com uma possível indicação ao Supremo Tribunal Federal. Será dele a vaga, que será aberta em 2023, caso Bolsonaro se reeleja no ano que vem.

Sabendo disso, os senadores da comissão apostam alto na tática de marcar sob pressão e atirar de onde der. Eles vão criar um observatório para que o público acompanhe o andamento das investigações no Ministério Público. É um jeito de deixar o zagueirão bem perto do carinho da torcida num estádio como a Bombonera. Antes que a bola chegue a ele, Aras já escalou um órgão da PGR responsável pela análise prévia das políticas públicas da pandemia. Pelo desenho do jogo, o chamado Giac (Gabinete Integrado Covid-19) será o cabeça-de-área do sistema defensivo. Se a zaga furar, ele ao menos terá com quem dividir a responsabilidade institucional.

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Com Lira, o único que pode mandar abrir as comportas do processo por crimes de responsabilidade, Bolsonaro pode dormir mais tranquilo. A chance de o aliado franzir a testa com o relatório é quase zero. A não ser, é claro, que os ventos da próxima eleição virem labaredas em seu cangote. O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB), é seu grande concorrente em Alagoas e, a depender da pressão popular, pode servir de redutor de expectativas para a família Lira. A ver.

Com o jogo trancado pelo centro, os senadores da CPI preparam também uma ofensiva pelas beiradas. Pretendem entregar cópias do relatório ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, e às forças-tarefa do Ministério Público de São Paulo, onde o caso Prevent Senior é investigado, e do Rio, onde suspeitas sobre hospitais federais estão na mira.

Também querem entregar o relatório nas mãos da alta comissária da ONU para Direitos Humanos, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet —um encontro com alto potencial de exposição e pressão. É a via para se chegar às cortes internacionais. Crimes contra a humanidade, vale lembrar, são imprescritíveis.

Com o périplo, os senadores manterão o assunto CPI no radar a menos de um ano da eleição.

Na sessão que aprovou o relatório final, 7 dos 11 senadores concordaram em ampliar o escopo das investigações. Não deixaram de aliviar para os militares, elementos centrais na estratégia de desmobilização popular via cloroquina, mas passaram a mirar quem por pouco não passou desapercebido, como o governador do Amazonas, Wilson Lima —conterrâneo, aliás, de Omar Aziz (PSD-AM), presidente da comissão.

Essa é a primeira vez na história que uma CPI atribui a um presidente em exercício tantos crimes. Ao todo, 77 pessoas foram responsabilizadas pela comissão, entre elas quatro ministros, dois ex-ministros e três filhos do presidente, além de empresários, blogueiros e médicos que toparam servir de esteira para um “missionário enlouquecido para matar o próprio povo”, como definiu o relator.

O julgamento principal, guardado para a História, só agora tem início.

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