Relatório do Ministério da Defesa usa tática da cloroquina para confundir ao informar

BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 25: Jair Bolsonaro President of Brazil and Commander of the Brazilian Army, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira stand as part of a ceremony during the commemoration of the Day of the Soldier at the military headquarters on August 25, 2021 in Brasilia, Brazil. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Militares prestam continência a Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Em julho de 2020, quando resolveu rasgar a faixa de presidente e ganhar a vida como garoto-propaganda de remédio ineficaz, Jair Bolsonaro (PL) foi a público dizer por que insistia tanto em vender a cloroquina como a solução e cura para todos os males enfrentados pelos brasileiros durante a pandemia.

Para Bolsonaro, não havia comprovação de que o medicamento era inútil. Nem que não era útil.

O raciocínio torto serviu como base supostamente lógico para seguir atuando como charlatão, conforme a denúncia da CPI da Covid.

Quem àquela altura conseguia ligar lé com cré percebeu a pegadinha do presidente. Bastava trocar cloroquina por água ou sabão em pó que dava no mesmo. Assim é fácil atravessar o limite da responsabilidade: bastava transformar em hipótese o que o consenso científico já jogava para escanteio.

Como? Transformando um debate médico em direito de opinião. Afinal, era direito dele tomar o remédio que quisesse e acreditar em seus efeitos, não é mesmo?

O detalhe é que a dúvida não foi lançada por um desajustado qualquer, mas pelo próprio presidente da República.

Quanta gente, ao ver no discurso oficial uma brecha para acreditar na cura, não se acabou em cloroquina em vez de tomar os devidos uidados à espera da vacina, esta sim a única saída eficaz contra um vírus que por aqui matariam até o fim de 2022 mais de 680 mil pessoas?

Cada um, afinal, era livre para acreditar no que queria, a ponto de ninguém desconfiar que Bolsonaro estava entre nós para inverter a oração de São Francisco e levar dúvida onde antes havia fé na palavra dos infectologistas.

Estava na cara que Bolsonaro não tinha ideia do que estava falando –o então ministro Luiz Henrique Mandetta era um dos poucos que sabia e foi demitido.

No apagar das luzes da gestão Bolsonaro, o Ministério da Defesa decidiu adotar estratégia parecida ao divulgar seu relatório sobre a segurança das urnas eletrônicas.

O parecer era aguardado pelas hordas bolsonaristas que tomaram as ruas convictas de que as eleições foram roubadas e aguardavam apenas o soar das trombetas para trancar na marra a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Foi o que fizeram os apoiadores de Donald Trump, nos EUA, após serem alimentados por meses com teorias da conspiração baseadas no mesmo argumento: não foi ele quem foi derrotado, foi o sistema que operou para eleger um inimigo.

Trump e Bolsonaro nunca apresentaram provas do que diziam. O pastiche brasileiro jura que foi roubado já em 2018, mas ao ser confrontado buscou a cartilha da cloroquina para dizer que não havia provas de que foi sacaneado, mas também não havia como dizer que não foi.

De novo, o argumento cloroquina serve para qualquer situação. Não há provas, por exemplo, de que marcianos costumam passar as férias em Porto Seguro; mas também não há provas de que não vieram. Alguém viu? Pois ninguém também não viu.

Há pontos em comum entre o relatório entregue pelos militares ao Tribunal Superior Eleitoral e a versão sanitarista do capitão: uns não têm como atribuição vigiar as urnas; outro, como alguns devem ter percebido, não tem diploma de médico.

Mas em algum momento o comando orientado pela hierarquia fundiu a cuca entre atender as obsessões de seu comandante-em-chefe ou obedecer à razão.

A saída foi buscar a cartilha cloroquina, dizendo que realmente não há indício de que as eleições foram fraudadas, mas hipoteticamente é possível fraudar, sim.

Até aí cabe um mundo na mesma fala. Hipoteticamente as Forças Armadas deviam deixar aos entendidos a condução das eleições, como acontece desde que o sistema de votação eletrônico foi implementado no país em 1996.

Das manifestações feitas pelas autoridades sobre o resultado das urnas, o único que realmente importa é o do TSE ao fim do constrangimento. Eis a íntegra:

"O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recebeu com satisfação o relatório final do Ministério da Defesa, que, assim como todas as demais entidades fiscalizadoras, não apontou a existência de nenhuma fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas e no processo eleitoral de 2022.

As sugestões encaminhadas para aperfeiçoamento do sistema serão oportunamente analisadas.

O TSE reafirma que as urnas eletrônicas são motivo de orgulho nacional, e que as Eleições de 2022 comprovam a eficácia, a lisura e a total transparência da apuração e da totalização dos votos".

Fim de papo? Quem dera.

Divulgado o parecer, muita gente correu para anunciar que agora finalmente podemos tocar a vida.

Uns acham que isso significa esquecer o assunto; outros, que é preciso, agora sim, cercar os quarteis e sedes de governo e decretar o estado de sítio porque, afinal, até os militares deram a entender que se alguém quiser meter o louco nas eleições, isso pode acontecer.

Fica a cargo de cada um interpretar a fala como quiser: para uma parcela considerável da população, se uma única urna pode ser fraudada, fraudada a eleição está.

Estamos numa era, afinal, em que só se acredita no que se quer.

A fala ambígua de Bolsonaro sobre a cloroquina era uma confissão em voz alta de seu despreparo. Para parte do país, porém, era uma dose de reforço na credibilidade de um medicamento ineficaz.

Ninguém deixou de tomar cloroquina quando o presidente disse que não havia prova de seus benefícios, mas também que não havia de seus malefícios.

O duro é que havia. Já em 2020 uma agência de medicamentos da União Europeia alertava que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina estava associado ao risco de distúrbios psiquiátricos e comportamentos suicidas.

Talvez isso explique o atual estado de demência de um país imerso numa realidade paralela que decidiu tomar as ruas mobilizadas por uma farsa e a esperança de construir um país fictício. Não se pode dizer que a culpa é da cloroquina. Nem que não é.