Relaxar isolamento em grandes centros faz coronavírus penetrar mais no interior, diz estudo

Johanns Eller e Rafael Garcia

O relaxamanto de medidas de distanciamento social nos grandes centros urbanos do país pode resultar em grande aumento do impacto da Covid-19 em municípios menores e mais isolados que ainda não tenham altos índices de infecção, alerta um novo estudo da UFV (Universidade Federal de Viçosa-MG).

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A conclusão saiu do cruzamento de dados epidemiológicos dados de mobilidade, bem como o censo demográfico de 2010, além de dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para a análise das dinâmicas sociais e econômicas entre municípios por meio de fluxos terrestres e aéreos.

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O trio de pesquisadores Guilherme Costa, Wesley Cota e Silvio Ferreira indica que o chamado pico epidêmico da Covid-19 no país, ou seja, o número máximo de novos casos confirmados no mesmo dia seguido de uma tendência de queda nas estatísticas, deve ocorrer em cidades brasileiras em diferentes momentos. O estudo saiu em formato de pré-print (versão preliminar ainda sem revisão independente).

Com mais de 3 mil municípios sem registros oficiais da Covid-19 — eram 2.142 cidades com pelo menos um caso confirmado da doença em 30 de abril —, o Brasil pode ter grandes surtos do Sars-CoV-2 em cidades do interior, com índices muito baixos de imunização, com a flexibilização do isolamento social nos grandes centros, como as capitais, que naturalmente concentram a epidemia. Por isso, os autores concluem que medidas restritivas uniformes em escala regional ou estadual podem não ser a melhor resposta à crise. Mesmo levando em conta médias estaduais, o cenário de picos epidêmicos (e de quando eles ocorrem) varia.

O cenário é simples: com o relaxamento do distanciamento social, o vírus fatalmente voltará a circular, mesmo que em velocidade reduzida, e chegará a estas cidades menores com pessoas que viajam para estas.

Por isso, na avaliação dos pesquisadores, a saída para evitar um colapso generalizado do sistema de saúde e evitar ao máximo a chegada do coronavírus ao interior é, preferencialmente, achatar a curva epidemiológica nos grandes centros e conduzir testagens em massa nas cidades menores, mesmo sem evidências de surtos.

Metapopulações

A redução drástica do fluxo de pessoas das regiões mais afetadas pela Covid-19 também é apontada como uma solução, mas os autores ponderam que a medida só se mostrou bem sucedida em Wuhan, na China, onde o Sars-CoV-2 foi identificado pela primeira vez. Mesmo as quarentenas adotadas nos países mais atingidos pela pandemia na Europa foram menos drásticas do que as da cidade chinesa.

Para definir a modelagem, os pesquisadores da UFV adotaram uma abordagem de "metapopulações" — necessário para analisar municípios separados, mas com fluxo de pessoas entre si.

A análise leva também em conta indivíduos em diferentes situações epidêmicas (pessoas saudáveis sem imunidade contra a Covid-19, indivíduos expostos ao vírus, assintomáticos, infectados com e sem diagnóstico e pacientes curados) e seus deslocamentos por diferentes áreas a partir das estatísticas do IBGE e da Anac.

Apesar de toda a sofisticação, as projeções do grupo são uma aproximação.

— A gente usa para o estudo informações sobre mobilidade que a gente extrapolou a partir de dados do IBGE. O ideal seria que existissem dados com a situação atual de mobilidade agora. Essa é uma limitação do nosso trabalho — explica o físico Ferreira.

Cenários

Foram levados em conta também três cenários diferentes: o primeiro, sem isolamento social e movimentação livre dos indivíduos; o segundo, moderado, com redução de 30% dos contatos sociais e de 40% dos deslocamentos entre municípios; e o de mitigação forte, com redução do contato em 50% e de 80% no deslocamento entre as cidades.

A exemplo das conclusões do artigo, os autores mencionam a grande discrepância entre a curva epidemiológica das capitais confinadas, atreladas às regiões metropolitanas e demais áreas com as quais guardam fortes laços econômicos e sociais, com as de cidades do interior.

A falta de sincronia se repete nos diferentes níveis de isolamento testados pelo modelo.

— Mais precisamente, quanto mais severas são as medidas menor a sincronia — explica Ferreira.

A exceção, pontua o estudo, é o estado do Paraná, cuja disseminação da Covid-19 parece se dar independente da dinâmica da doença na capital, Curitiba.

Assim, a tendência é que as capitais dos estados passem primeiro pelo pico, enquanto o processo será mais tardio nas cidades do interior. O confinamento nos grandes centros contribui para o achatamento da curva epidemiológica a nível local e afeta a disseminação da doença nas áreas mais próximas.

Isso permitiria, por exemplo, o socorro às áreas do interior ou mesmo periféricas que sofrerem com o pico da Covid-19 em momentos diferentes do quadro nacional com a infraestrutura das cidades já recuperadas da crise.

Surto heterogêneo

O artigo também conclui que a dinâmica da pandemia responde a múltiplos centros de influência que, por vezes, podem ultrapassar as divisas de um estado para o outro. Para uma costura racional de estratégias de acompanhamento da interiorização da Covid-19 no Brasil, o estudo recomenda que as políticas restritivas sejam adotadas levando em conta os contextos regionais, sem deixar de observar o comportamento da doença a nível nacional.

Para Ferreira, os gestores públicos podem tentar alavancar a vantagem criada por o país ter um surto heterogêneo, com o interior atingindo pico mais tarde que grandes cidades.

— Por exemplo, você conseguiria manter parte do setor produtivo que é essencial (alimentação, medicamentos, higiene etc.) nas cidades do interior que ainda não estão com pico de epidemia, enquanto os grandes centros estariam tentando combater a doença — explica o pesquisador.

— Mas para isso é preciso ter segurança nas cidades do interior. Do contrário, a gente perde essa vantagem, e vai acontecer um surto epidêmico homogeneizado no país inteiro: a pior situação que poderia existir.

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