Relembre casos de moradores que tiveram objetos confundidos com armas durante operações em favelas do Rio

O caso do catador de recicláveis Dierson Gomes da Silva, de 50 anos, morador da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, que foi morto após ter um pedaço de madeira confundido com um fuzil nesta quinta-feira, marca um histórico de enganos que custaram vidas em ações policiais no estado. A madeira que Dierson carregava quando foi morto era usada por ele, segundo familiares, como um cabo para ser acoplado na enxada durante serviços de capina.

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Entre os casos mais emblemáticos dos últimos anos, está o de Hélio Barreira Ribeiro, morto na laje de sua casa por policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), durante uma operação no Morro do Andaraí, em maio de 2010, ao ter uma furadeira confundida com uma arma. A família da vítima disse que, após a morte, os agentes entraram em sua casa e levaram a ferramenta.

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Em outubro de 2015, os mototaxistas Thiago Guimarães Dingo e Jorge Lucas Martins Paes foram mortos por um disparo feito pelo policial Carlos Fernando Dias Chaves, que também foi responsabilizado por outros homicídios. Na ocasião, o PM, que trabalhava no 41º BPM (Irajá), confundiu um macaco hidráulico que Jorge carregava na garupa da moto de Thiago com uma arma.

Quando fez o registro do caso na 39ª DP (Pavuna), o policial afirmou ter participado de um tiroteio com traficantes. No entanto, promotores do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), baseados no laudo de necrópsia — que detectou restos de pólvora no corpo da vítima, sinal de que o cano da arma estava próximo ao corpo —, alegam na denúncia que “os tiros foram efetuados a curtíssima distância”. O policial, em depoimento, afirmou que estava a 50 metros da vítima quando disparou cinco vezes em sua direção.

Quase três anos depois, em janeiro de 2018, o cabo da PM Hélder Roberto Gomes da Silva, do 20º BPM (Mesquita), admitiu que se confundiu no momento em que o jovem Luis Guilherme dos Santos deixou a mochila cair, na última quarta-feira, e atirou no rapaz, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O rapaz, que estava trabalhando, morreu. O policial afirmou em depoimento à 53º DP (Mesquita) que o garoto fez um movimento brusco, “com a mão na cintura, dando a entender que iria pegar uma arma” e disparou “visando proteger a si e a seu companheiro”. O delegado de plantão liberou o suspeito para responder ao crime em liberdade.

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No mesmo ano, em setembro, um homem foi morto durante ação da PM no Chapéu-Mangueira, no Leme, Zona Sul do Rio. De acordo com informações da Sala da Polícia do Hospital Municipal Miguel Couto na época, a vítima foi identificada como Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, de 26 anos. Moradores da favela acusaram policiais da UPP Chapéu-Mangueira de terem confundido um guarda-chuva que a vítima segurava no momento em que foi atingida com um fuzil.

Em abril de 2019, o DJ João Victor Dias Braga, de 22 anos, foi morto durante uma operação da PM na comunidade Santa Maria, na Taquara, na Zona Oeste do Rio. A família do rapaz alegou, na ocasião, que a furadeira que ele carregava foi confundida com uma arma, assim como o caso de Hélio Ribeiro, em 2010. Segundo a irmã de João, ele ia ao encontro de um amigo com quem faria um "bico" para complementar a renda quando foi assassinado.

Dierson, vítima do caso mais recente, foi morto ao sair da casa onde morava sozinho. Pai de dois filhos, Dierson era viúvo e sofria de depressão. A família de Dierson, que trabalhava com reciclagem, não tem dúvidas de que ele foi morto pela PM ao ser confundido com um bandido, durante operação feita nesta quinta-feira.

Segundo a irmã do catador, moradores da localidade conhecida como Pantanal, onde o fato ocorreu, relataram ter ouvido uma rajada de tiros. Pelo menos dois tiros teriam atingido a vítima. De acordo com parentes, o corpo de Dierson apresentava ferimentos no pescoço e na canela. Muito conhecido na comunidade, ele também costumava acumular coisas que não eram aproveitadas na reciclagem.