Religiosos LGBTQIA+ criam ato ecumênico e bloco da fé em São Paulo

SÃO PAULO / SÃO PAULO / BRASIL - 17/06/22 - Grupo que participou da organização do evento que será realizado neste sábado (18).  ( Foto: Karime Xavier/ Folhapress)
SÃO PAULO / SÃO PAULO / BRASIL - 17/06/22 - Grupo que participou da organização do evento que será realizado neste sábado (18). ( Foto: Karime Xavier/ Folhapress)

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Conhecido como um espaço mítico pela comunidade LGBTQIA+, o largo do Arouche vai se tornar, de fato, sagrado, neste sábado (18). A partir das 10h, representantes de diversos grupos religiosos vão se reunir no centro de São Paulo para o evento "Religiões, diversidade e democracia: por uma fé que acolhe, abraça e liberta".

O ato ecumênico idealizado pelo Movimento Pastoral LGBT Marielle Franco (Mopa) vai contar com a presença de pelo menos 17 coletivos de denominações cristãs, budistas, judaicas e de matrizes africanas. No domingo, dia 18, os grupos se reunirão às 11h, em frente ao MASP, para seguir em marcha na Parada do Orgulho LGBT+, com o Bloco Gente de Fé.

"As pessoas LGBTQIA+ são muito plurais, é impossível encaixar todas em uma caixa, não só no aspecto de sexualidade, mas também no religioso. Esse diálogo faz com que a gente cresça, para que dentro dessa diversidade nasça uma unidade", afirma Luiz Fernando Nogueira, membro do conselho do Mopa.

A ideia de criar um bloco ecumênico de dissidentes de gênero e sexualidade para a Parada nasceu em 2019, depois do 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI, organizado pelo grupo Koinonia Presença Ecumênica e Serviço e a Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade. "Naquela ocasião, o foco inicial foi nas igrejas cristãs, por se acreditar que nesses espaços há maior resistência às pautas de gênero", diz Andréa Moller, do Grupo de Diversidade Católico de São Paulo (Núcleo Madalenas), e coordenadora de assessoria da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT.

Para os participantes, o ato ecumênico e o bloco mostram que pessoas gays, lésbicas, transexuais e não binárias tem direito à espiritualidade e podem cultivar sua fé da forma que quiserem bem entende.

"Não somos acolhidas de forma alguma pelo discurso cristão hegemônico. Costumo dizer que, para as pessoas que seguem essa linha, é mais fácil conceber a existência de uma pessoa LGBTQIA+ não cristã do que aquela que se declara cristã", diz Allie Terassi, que integra a primeira coordenadoria totalmente composta por pessoas trans do grupo Evangélicx pela Diversidade. "Isso porque existe essa ideia de que estamos pervertendo o evangelho, como se existisse só uma forma de interpretar as escrituras, como se Deus fosse um monopólio."

Ao mesmo tempo, diz ela, pessoas cristãs LGBTQIA+ também enfrentam desconfiança de parte da comunidade, diz Terassi. "Aparentemente, ser LGBTQIA+ e cristão é uma contradição, por conta disso não somos acolhidos nos espaços religiosos, nem nos espaços de militância. Então a gente se acolhe entre a gente", conta a coordenadora.

Neste ano, além de budistas e judeus, representantes de matriz africana também se juntam ao bloco. O professor e ativista Waldecy Alves, presidente do Coletivo Resistência Afro-Religiosa, diz que o respeito à diversidade é a própria gênese do candomblé. "Acreditamos que a ancestralidade de cada indivíduo é proveniente de uma energia da natureza, como água, metal, terra… que são representados por divindades africanas. Portanto, as pessoas não têm a mesma origem. E, de acordo com essa visão de mundo, o Universo não é governado com mãos de ferro por um Deus único — homem e heterossexual — mas por diversos deuses e deusas."

Para o Pai Adriano Neres, presidente da Federação de Umbanda e Candomblé Educa Afro. o evento ecumênico ganhou mais importância por conta do contexto de polarização da política atual. "Apesar dos nossos governantes serem negligentes, nós seremos a resistência a qualquer tipo de preconceito."

Em uma das ações mais recentes, o governo afirmou que deve recorrer da decisão da Justiça Federal do Acre que determinou que o IBGE inclua questões sobre orientação sexual e identidade de gênero no questionário do Censo deste ano.

Ativistas e especialistas afirmam que essas informações são imprescindíveis para a realização de políticas públicas voltadas para a população do país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Antes disso, em janeiro, o presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou, ao canal Jovem Pan News, que as pautas LGBTQIA+ são "uma maneira de dominar o povo e destruir a família".

A relação entre política e questões de gênero também está presente no trabalho de Allie Terassi, do Evangélicxs pela Diversidade, para quem os dois tópicos são indissociáveis. "Quando vou em atos de oposição ao governo, ou quando atuo em espaços de militância e ativismo, não estou lá apenas por ser um corpo trans, estou lá também porque acredito em um Deus que nega e desaprova essa política de morte, um Deus que celebra todos os corpos", afirma. "Eu também tenho direito a reivindicar Deus, e dizer que ele me celebra e se glorifica a partir de quem eu sou."

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