Dado desanimador de medicamento contra covid expõe importância de ensaios grandes e randomizados

·Agência de notícias
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Quando se trata de ensaio clínico de qualquer medicamento, o tamanho importa, dando potencialmente uma vantagem ao veredicto desanimador da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre o remdesivir, da farmacêutica Gilead Sciences, no tratamento contra a covid-19, em relação ao estudo mais positivo divulgado pela empresa, segundo cientistas proeminentes.

O medicamento da Gilead ―um antiviral originalmente desenvolvido para tratar o Ebola― não mostrou nenhum benefício nas taxas de sobrevivência, de acordo com os resultados do maior ensaio clínico randomizado do mundo com potenciais drogas para combater a covid-19, conduzido pela OMS.

Um fator marcante dos resultados foi a aparente diferença com o estudo da própria empresa, publicado na íntegra na semana passada, que mostrou que o tratamento reduziu o tempo de recuperação em cinco dias em comparação com os pacientes que receberam um placebo.

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Em sua resposta sobre os dados, a farmacêutica norte-americana questionou a precisão do estudo da OMS, estimulando um debate sobre o que torna um estudo mais preciso.

“Isso fornece mais evidências de que o remdesivir não é uma panaceia”, disse Peter Galle, professor do hospital Universitário de Mainz, na Alemanha.

Embora os resultados da OMS pareçam diferir das conclusões do estudo da Gilead publicado no New England Journal of Medicine na semana passada, os especialistas disseram que as conclusões não são inconsistentes.

O ensaio da OMS em vários países é, no entanto, maior e melhor, segundo eles, e portanto mais capaz de fornecer resultados confiáveis.

No estudo Solidariedade, da OMS, quatro potenciais tratamentos diferentes de Covid-19 foram estudados em mais de 11.000 pacientes em 405 hospitais de 30 países.

Um frasco da droga Remdesivir encontra-se durante uma coletiva de imprensa sobre o início de um estudo com o remédio para Ebola Remdesivir em pacientes particularmente graves no Hospital Universitário Eppendorf (UKE) em Hamburgo, norte da Alemanha. (Photo: ULRICH PERREY via Getty Images)
Um frasco da droga Remdesivir encontra-se durante uma coletiva de imprensa sobre o início de um estudo com o remédio para Ebola Remdesivir em pacientes particularmente graves no Hospital Universitário Eppendorf (UKE) em Hamburgo, norte da Alemanha. (Photo: ULRICH PERREY via Getty Images)

A Gilead informou que outros estudos com remdesivir, incluindo o lançado na semana passada com 1.062 pacientes que o compararam com um placebo, mostraram que o tratamento reduziu o tempo de recuperação da Covid-19.

Ainda assim, disseram os especialistas, os dados do Solidariedade acrescentam um acompanhamento de longo prazo e o peso da evidência para determinar se e em quais circunstâncias o remdesivir pode ajudar os pacientes com covid-19.

″É um belo ensaio. É grande, em populações relevantes, é randomizado e é focado no resultado que importa, a mortalidade”, disse Martin Landray, professor de Medicina e Epidemiologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “E os resultados são bastante claros: não há impacto do remdesivir na sobrevida geral”, afirmou ele à Reuters.

Um técnico de laboratório trabalha com o medicamento experimental "Remdesivir" para o tratamento da doença coronavírus (COVID-19) na Eva Pharma Facility no Cairo, Egito. (Photo: Amr Abdallah Dalsh / Reuters)
Um técnico de laboratório trabalha com o medicamento experimental "Remdesivir" para o tratamento da doença coronavírus (COVID-19) na Eva Pharma Facility no Cairo, Egito. (Photo: Amr Abdallah Dalsh / Reuters)

Andrew Hill, especialista em farmacologia da Universidade de Liverpool, observou que originalmente apenas dados de curto prazo foram relatados no estudo da Gilead.

“Mas quando os resultados do acompanhamento de longo prazo foram adicionados, as taxas de mortalidade começaram a aumentar para o remdesivir”, disse ele.

Os dados do Solidariedade também mostraram que três outros medicamentos testados em pacientes com Covid-19 ―hidroxicloroquina, lopinavir/ritonavir e interferon― também ofereceram pouco ou nenhum benefício.

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.

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