Renúncias na Europa escancaram onda de desgaste de líderes no Ocidente

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Separados por uma semana, os pedidos de renúncia dos líderes de duas das maiores economias da Europa desencadearam instabilidade dentro das fronteiras, elevaram o grau de incerteza em um continente afetado por crises e escancararam um fenômeno global.

O britânico Boris Johnson e o italiano Mario Draghi podem ser os rostos mais em evidência na onda de turbulência política, mas não estão sozinhos. Em meio às consequências da Guerra da Ucrânia, às tentativas de se reerguer da pandemia --que voltou a ter curvas ascendentes--, à inflação e a escândalos de toda sorte, certo mau humor coletivo parece impor um desgaste inefável à popularidade de dirigentes.

Emmanuel Macron, na França, tenta reorganizar os planos de reformas após o pleito legislativo deixar sequelas em sua base na Assembleia Nacional, privando o governo de maioria absoluta. Na Alemanha, Olaf Scholz continua em busca de uma voz que possa preencher o silêncio deixado por Angela Merkel com manobras radicais como a remilitarização e a retomada da energia "suja" a carvão. Joe Biden, nos EUA, vê números cada vez menos simpáticos nas pesquisas. Na América do Sul, até líderes recém-eleitos já têm crises para chamar de suas.

Situações domésticas diferentes, mas que compõem um quadro coletivo de baixa popularidade. Na Europa, quem puxa a fila é o britânico, forçado a renunciar no dia 7, após uma enxurrada de escândalos --seu sucessor só deve ser conhecido em setembro.

Draghi, mal avaliado por "apenas" 46%, viu esse percentual crescer sete pontos em um mês, o pior patamar em 18 meses no cargo. Ele continua chefe de governo, após sua demissão ter sido rejeitada pelo presidente Sergio Mattarella, mas sua permanência vai depender do que disser e ouvir no Parlamento na próxima quarta (20).

"Tolstói escreveu que todas as famílias felizes se parecem, mas as infelizes o são à sua maneira. Aqui é o contrário. Em muitos países em que o líder tem baixa aprovação, as razões por trás são semelhantes", diz Matthew Kendrick, analista da Morning Consult, consultoria que elabora uma pesquisa semanal sobre o desempenho dos principais dirigentes mundiais --números citados aqui estão no levantamento de 6 a 12 de julho.

Segundo ele, apesar de cada país estar passando, internamente, por desafios em diferentes frentes, a rejeição aos políticos tem como pano de fundo a inflação, acelerada globalmente nos últimos meses pelos preços da energia, dos alimentos e dos combustíveis --o custo de vida, enfim.

No Reino Unido, o índice ao consumidor atingiu 9,1% em maio, o maior em 40 anos. Na zona do euro, a inflação em junho foi de 8,6%, pressionada pelo custo da energia (que subiu 41,9%, um recorde).

São efeitos diretos da Guerra da Ucrânia, que travou a circulação de fertilizantes russos e de grãos ucranianos e levou à redução do fornecimento de gás natural de Moscou. "As pessoas estão com dificuldades de pagar as contas e sem ver um futuro econômico esperançoso. Em grande parte, culpam seus líderes", afirma Kendrick.

Outro levantamento da Morning Consult mede a impressão da população sobre os caminhos de seu país. No Reino Unido 79% dizem acreditar que o rumo tomado está errado, mesma resposta para 74% na França, 72% na Itália e 66% na Alemanha.

"O impacto econômico da guerra teve um efeito enorme, e a crise do custo de vida chegou às casas. Nenhum governo, de esquerda ou direita, populista ou não, poderia ter esperado ter que lidar com isso", diz Aidan Hehir, professor da Escola de Ciências Sociais da Universidade de Westminster.

Foi um efeito parecido ao de outro elemento imediatamente anterior, a Covid. Nos dois casos, as respostas dos governantes às crises revelam sua essência. "O governo britânico, por exemplo, é formado por uma elite que não tem ideia de como redistribuir riqueza. Na alta do custo de vida eles não sabem o que fazer; está além da compreensão o fato de alguém ter dificuldade de pagar o combustível."

Para a insatisfação generalizada, porém, o professor identifica ainda uma raiz histórica, crescente desde o fim da Guerra Fria: nos anos 1990, a ideia de que o mundo poderia se tornar mais pacífico e próspero e de que a globalização e a democracia iriam se espalhar elevaram as expectativas. Foi na crise financeira de 2008 que parte começou a se sentir deixada para trás, com promessas frustradas. "Isso gera raiva. O que estamos vendo na Europa é a manifestação de uma raiva muito negativa em relação aos representantes."

Os frutos disso, como já visto, são a ascensão de movimentos políticos populistas e extremistas, que prometem mudanças radicais --em geral apontando o dedo para minorias. "Mas, quando chegam ao poder, eles não resolvem, porque obviamente deturparam a origem do problema. Vem, então, uma segunda onda de frustração", afirma.

A onda se reflete, então, em protestos nos mais variados lugares, da Argentina ao Sri Lanka, passando por Equador, Panamá e Hungria.

A onda de calor na Europa torna difícil imaginar que, daqui a pouco, o frio estará de volta --e que as casas vão precisar de aquecimento, a gás ou elétrico. Mas as temperaturas baixas são tão certas quanto os riscos inerentes à continuidade da guerra, incluindo a possibilidade de a aliança ocidental contra a Rússia rachar e de mais mudanças de lideranças acontecerem.

Em qualquer escala, nacional, continental ou global, Hehir aposta que "será um inverno de muita instabilidade".

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