Renda extra e vida nova graças ao crochê: vizinhas de São Conrado capacitam moradoras da Rocinha

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RIO — Criado pela artista plástica Daniela Vignoli e pela procuradora do município Heloísa Cyrillo, moradoras de São Conrado, o projeto Nós do Crochê oferece conhecimento e oportunidades para moradoras da Rocinha a partir do desenvolvimento de habilidades com linhas e agulhas. Atualmente, a dupla capacita um grupo de 20 mulheres a produzir peças de crochê, além ajudá-las a vender os artigos. Iniciada em fevereiro de 2020 e interrompida na pandemia, a iniciativa já tem fila de espera.

O Nós do Crochê é um curso oferecido pela Associação de Mães Amigas da Rocinha (A.M.A.R.), que há dois anos começou a doar cestas básicas mensalmente para famílias da comunidade. Daniela e Heloísa queriam fazer mais e se aproximar das moradoras do local, além de auxiliá-las a aumentarem o seu orçamento mensal.

As aulas começaram dentro do Ciep da Rocinha e migraram depois para a Biblioteca Parque da comunidade. Logo em seguida, a Covid-19 forçou uma pausa no projeto. Uma das primeiras alunas do Nós do Crochê, a ajudante de cozinha Maria Goreth Lopes da Silva, de 58 anos, porém, ficou deprimida com o isolamento e a interrupção das aulas, o que inspirou nova guinada na situação.

— Amo artesanato e queria dar continuidade às aulas, além de me sentir muito sozinha. Fiquei desempregada e com depressão e comecei a pedir a ajuda da Daniela e da Heloísa, que abriram as portas de suas casas para mim. Continuei a aprender e comecei a vender os produtos. Surgiu um dinheirinho que foi a minha salvação. Já ganhei cerca de R$ 3 mil desde que aprendi a fazer crochê. O projeto mudou a minha vida — alegra-se Maria.

Após o apelo da aluna, a dupla passou a receber em casa outras mulheres que sentiam falta das aulas e conseguiu apoio da Parceria Carioca, loja que vende peças de diversas marcas. Há três meses, Daniela e Heloísa alugaram um espaço em frente ao Fashion Mall para que as aulas pudessem ser retomadas no formato habitual e as vendas fossem facilitadas.

— Queríamos um local perto da Rocinha para que elas também pudessem receber clientes, além de fazerem as aulas. No primeiro andar há um showroom, e no segundo fica a sala de aula. Acabou sendo maravilhoso: para elas, é prazeroso sair da Rocinha e ter um dia diferente. Está sendo tão bacana que outros moradores do nosso condomínio já se ofereceram para vir fazer atendimento nutricional e psicológico, entre outras atividades para elas — conta Daniela.

Dupla busca apoio e patrocínio para crescer

Os encontros acontecem sempre às segundas-feiras, das 15h às 20h. As alunas recebem todo o material de que necessitam, além de serem recebidas com lanchinhos. O objetivo é fazer com que se sintam acolhidas. Para participar, não há pré-requisito além de ser moradora da Rocinha, nem mesmo de idade. A única exigência é ter comprometimento.

— Antes da pandemia, o Nós do Crochê era apenas um embrião. Só percebemos que estava realmente dando certo quando vimos o número de solicitações para fazer parte do projeto e estávamos lotadas de mercadorias. Começamos com oito alunas e fechamos em 20, no momento, porque senão fica muito confuso para ensinar — explica Heloísa.

Inicialmente, Daniela e Heloísa pensaram em ter alunas que fossem chefes de família com dificuldades para trabalhar. A procura, porém, veio até de crianças. Hoje, a maioria das integrantes está na faixa dos 40 anos, mas há desde uma menina de 7 anos a uma senhora de 80 empenhadas em suas criações. A ideia, no futuro, é fazer da sede do projeto uma escola de crochê e bordado.

— Daqui a dois meses pretendemos abrir outra turma, e vamos contratar alguém para nos dar suporte administrativo. Também buscaremos apoio financeiro e patrocínio para ajudar no aluguel e no salário deste futuro funcionário. Hoje, é a gente que empacota e faz as entregas e, com a demanda maior, está mais difícil — conta Daniela.

Todo mês, a dupla acerta as contas com as alunas e paga de acordo com a produção realizada. Uma bolsa, por exemplo, custa R$ 100, e uma capinha de banco vale R$ 30. As mais necessitadas também recebem as cestas básicas. Daniela e Heloísa recolhem ainda doações de roupas e fraldas para ajudá-las. Dizem, aliás, que qualquer tipo de donativo é bem-vindo.

Maria Leonel da Silva, de 43 anos, é aluna do projeto há dois meses. Já levou para lá outras participantes: crianças e adolescentes do Acorda Capoeira, outro projeto do qual faz parte, que atende 300 pessoas com aulas de capoeira, italiano, inglês, instrumentos, samba e dança, reforço escolar e rodas de leitura.

— Vi que seria bom para essas jovens do Acorda Capoeira desenvolverem uma habilidade. Eu mesma sempre quis aprender crochê, mas achava que era difícil. Hoje fico muito feliz por ter essa oportunidade. Além de aprender, somos acolhidas, sentimos amor, amizade e carinho no Nós do Crochê — diz Maria.

Também há dois meses no projeto, Selma Moraes, de 38 anos, não esconde a felicidade ao contar que já fez bolsas e capas para bancos, com as quais obteve renda extra.

— Tenho dois filhos e, com os R$ 600 que ganhei, pude ajudar em casa. O Nós do Crochê é a nossa terapia — conta.

Quem quiser saber mais sobre o projeto pode entrar em contato pela conta do Instagram @nosdocroche. Já os produtos podem ser encontrados nas lojas Parceria Carioca (em Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, Jardim Botânico, Barra e Museu do Amanhã); na loja de artesanato Sol, no Jardim Botânico; e no ateliê do projeto, que fica na Estrada da Gávea, 712-B. O Nós do Crochê também está fechando uma parceria com as lojas Nannacay e Totem e participou do Salão de Negócios do Veste Rio (uma parceria da revista Ela, do GLOBO, e da revista Vogue), que aconteceu de quinta-feira a sábado no VillageMall.

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