Rene Silva: 'A gente não consegue resolver todos os problemas, mas dá para diminuir o sofrimento humano'

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RIO — No alto do Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, Rene Silva, ainda menino, não só olhava a comunidade onde havia nascido e estava sendo criado, como a enxergava. Via a pecariedade do saneamento básico, a iluminação insuficiente das ruas e vielas, o ir e vir de gente trabalhadora como a sua mãe, a costureira Cristina, assim como atos criminosos. Sem saber que transformar a sua realidade e de outros iguais era missão, para muitos, impossível, arregaçou as mangas, pediu licença e foi à luta. Aos 11 anos, fundou o jornal “Voz da comunidade” para jogar luz sobre a realidade da favela. Posteriormente, trocou o nome para “Voz das comunidades”. O plural não é à toa. A publicação ampliou o seu foco de atuação, ganhou aplicativo e versão on-line e virou uma ONG com ações de responsabilidade social. No comando de uma equipe com 30 profissionais está o recentemente contemplado com a Medalha Pedro Ernesto — maior honraria concedida pela Câmara Municipal do Rio —, comunicador comunitário, ativista pelas causas dos direitos humanos e antirracista, agente incansável no combate à fome e um orgulhoso morador do que pode ser chamado de seu lugar. No Dia da Consciência Negra, celebrado neste sábado (20), (e em todos os demais!), a potente voz deste Silva cuja estrela brilha merece ser ouvida:

— Comecei fazendo parte do jornal da Escola Municipal Alcides de Gaspari, em Higienópolis, mas, meses depois, criei o “Voz da comunidade” para denunciar os problemas do nosso entorno e logo entendi que precisava rebatizá-lo como “Voz das comunidades”. Era preciso narrar o que se passava nas favelas, como aconteceu em 2010 durante a ocupação da Vila Cruzeiro. Passei a ocupar uma função desafiadora em que preciso estar aberto para ouvir, acolher e tentar amenizar as dores das pessoas. A gente não consegue resolver todos os problemas, mas dá para diminuir o sofrimento humano. Os meus maiores sonhos são não ter ninguém passando fome, nem sendo vítima de violência, injustiças e racismo. Sei que esse desejo é uma grande utopia, mas luto dia e noite por um mundo melhor.

Racismo causa dores profundas

O ilustre favelado abraça causas que escolheu e uma para a qual foi escolhido.

— Quando se nasce preto neste país, tentam te dizer que o seu lugar é o de servir. Mas o povo preto, pobre e favelado, como eu, é potente. A causa antirracista deveria ser de toda a sociedade. Eu sofro todo tipo de racismo e em todos os espaços. Em lugares elitizados, o racismo é ainda mais cruel. Uma vez, estava entrando no avião, indo para uma palestra em Belo Horizonte, quando ouvi uma passageira comentar com outra “olha o tipo de gente que entra em avião agora, antigamente não era assim”. Não tive resposta. Fui para o meu assento, baixei a cabeça e chorei. Por mais ativista que eu seja, a dor é tão grande que nem sempre consigo rebater — lamenta.

Não é fácil ser Rene Silva. Não só por ser alvo dos racistas de plantão. A ONG Voz das Comunidades, através de contribuições de pessoas físicas e jurídicas, além de patrocínios, doa, em média, mil cestas básicas todos os meses. O número, no entanto, é insuficiente diante da necessidade que cresceu durante a pandemia:

— Pessoas com fome batem na porta da minha casa, não só na ONG. É angustiante demais. Em vários momentos, eu choro, assim como toda a equipe do “Voz”. Tenho atendimento psicológico duas vezes por semana para tentar dar conta da intensidade que é trabalhar com ajuda humanitária.

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