Rennan da Penha lança música com Anitta, diz que quer voltar aos bailes e chama Dennis DJ de 'covarde'

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DJ e produtor que popularizou uma revolução em 150 batimentos por minuto que acelerou o funk carioca, Rennan da Penha agora é também cantor. Ao menos por um postulante a hit: "Sextou", na qual divide microfone com ninguém menos que Anitta. A música chega às plataformas de streaming na noite desta quinta-feira, às 21h.

Em entrevista ao GLOBO, Rennan celebrou o novo lançamento, que marca uma nova fase na carreira e criticou um episódio que considera "desprezível e covarde". Enquanto estava preso em Bangu, em 2019, o produtor chorou ao ficar sabendo que Dennis DJ tocou e levou os créditos por suas produções de três anos de Baile da Gaiola no "Domingão do Faustão". De quebra, ainda foi chamado pelo colega de profissão de "apertador de play".

— Como você se sentiria chegando na comunidade por três anos seguidos, fazendo música, criando conteúdo para a comunidade, para uma pessoa que mora num condomínio da Barra da Tijuca, sem nunca ter tocado na favela, ganhar mérito com uma coisa que é sua luta? — questiona.

Procurado pela reportagem, Dennis DJ não comentou as falas de Rennan.

Aposta no afrobeat

"Sextou" — que acelera mais ainda, no 170 bpm — vem da mesma safra que saiu "Modo turbo", produção de Rennan e Rafinha RSQ, na qual Luísa Sonza, Anitta e Pabllo Vittar uniram seus alcances para dominarem o streaming. "Modo turbo", aliás, é o marco inicial da nova aposta de Rennan da Penha para, através de sua produtora Hitzada, revitalizar o funk carioca, agora pelas vias do afrobeat e do afrohouse, trazendo novos instrumentos e melodias para o batidão, sem perder o tempero fundamental.

Rennan conta que conheceu o afrobeat na prisão. Em 2019, absolvido em primeira instância e condenado em segunda por associação ao tráfico, ele passou sete meses preso no Complexo de Gericinó, em Bangu, mas obteve a liberdade após a mudança de entendimento do STF acerca das prisões antes do trânsito em julgado.

Nesta entrevista, ele aponta o racismo e o preconceito contra o funk como motivações por trás de seu cárcere. E conta que não se intimida: assim que possível, quer voltar a fazer bailes.

"Sextou" marca sua estreia oficial como cantor. Era um desejo antigo?

Na verdade, a pessoa que ia cantar essa música, o DJ Cabelão do Turano, não pôde, por problemas particulares. A voz precisava ser parecida com a dele, e ali na hora da gravação a mais parecida que consegui encontrar era a minha. Tive que colocar minha voz e me aventurar nessa nova experiência.

Então não teve uma preparação, nem nada do tipo?

Que nada, a gente já nasce preparado. (risos)

E é logo uma estreia numa parceria com a Anitta, uma das nossas maiores estrelas hoje. Foi fácil convencê-la?

Na verdade, foi ela que me chamou para fazer a música. Fiquei até surpreso, não entendi nada no dia. Ela me mandou mensagem perguntando se eu tinha algumas músicas em 150 ou 160 bpm, foi quando enviei pra ela "Modo turbo", da Luísa Sonza, que já tinha uma guia, e essa. E ela escolheu esses duas, "Modo turbo" e "Sextou". Essa é quase um pagode na batida, um funk 170 bpm, aceleramos um pouco.

Você ajudou a revolucionou o funk carioca com o 150. Qual é a próxima aposta para revitalizar o gênero?

Eu estou apostando no afrobeat e no afrohouse. A batida de "Modo turbo" é um afrohouse. Estou fazendo uma parceria com o DJ Télio, de Portugal, que é um produtor de afrohouse, e temos umas 12 músicas produzidas nessa linha. Vamos lançar um EP de afrohouse misturado com o funk. Pegando a letra do funk e colocando no afrohouse e no afrobeat. Pode dar uma coisa bem diferente.

De onde veio esse interesse no afrobeat?

Eu conheci com uma pessoa falando para mim, num momento difícil meu, foi até quando eu estava preso. Conheci o ritmo nesse contexto. Aí eu saí, comecei a procurar esse ritmo, peguei samples, criei beats em cima, modifiquei algumas coisas e mandei para os meus amigos. Saiu uma música com o Luck Muzik e a Mirella, "360", que também é um afrobeat, e acabou que saíram 12 músicas dessa.

Por falar em estar preso, daqui a pouco vão completar dois anos que você saiu. O que mais lembra daquela época, dois anos depois?

As coisas ruins, né. Fico pensando, ainda mais porque o processo está rolando, tenho grande fé que virão coisas boas. Ainda não vivi o que era pra eu viver, porque veio a pandemia logo em seguida, todo mundo meio que ficou parado. Não é a mesma coisa estourar um viral quando não tem um show, aquela quentura da música. Eu tive que recuar, criar uma nova roupagem para o funk que espero que dê certo. A gente está tentando trazer muita melodia, instrumentos novos, mas sem esquecer aquele tempero da favela, que é o que funciona no funk. Quando eu comecei no funk, não entendia nada de teoria musical, de notas, e agora estamos procurando evoluir cada vez mais e trazer isso para dentro do funk.

E como você vê, hoje, as circunstâncias por trás da sua prisão?

Na minha opinião, foi um ato de racismo mesmo. O amigo lá que me condenou disse que eu quis mostrar prepotência e arrogância por estar com uma arma de madeira perto de uma comunidade, mas ele nem sabe onde eu tirei a foto. Eu estava curtindo o carnaval perto da minha comunidade e ele quis generalizar tudo.

Em que sentido?

A partir de uma foto, ele decretou que eu compactuava com o crime, mas ele se esqueceu que tenho 25 anos de Complexo da Penha, eu nasci lá, assisti à ocupação da porta da minha casa, vi tanque de guerra entrando. E nada mudou na comunidade. Por que a minha prisão ia mudar alguma coisa, enquanto eu curtia o carnaval? Tem um monte de gente fazendo e soltando conteúdo com arma, a rapaziada do trap mesmo. Então o problema é o funk.

Pensa em voltar a fazer bailes em favelas, quando for possível?

Claro que eu quero. Não tem como, eu não me vejo sem tocar em favela, seria até uma covardia fazer isso comigo, me tirar da minha comunidade. Vou falar para você: me deixar num baile de comunidade é a mesma coisa que falar que vamos levantar o funk do Rio de novo. Porque, cara, o tempero... Hoje em dia, tem funk em quase todo estado, praticamente, mas o do Rio, quando inova, é outra parada. É diferente. E sei que vai acontecer de novo, os olhos vão voltar para o Rio no quesito funk.

Em fevereiro, você fez um desabafo no Twitter contando que chorou na cadeia quando soube que o Dennis DJ estava levando os méritos e as reproduções no streaming pelas músicas que você fez para o Baile da Gaiola. Como está essa questão?

É uma coisa que fico até com medo de ganhar um processo. Hoje, as pessoas cometem esse tipo de coisa e tem a cara de pau de processar a outra. É só você parar para raciocinar. Como você se sentiria chegando na comunidade três anos seguidos, fazendo música, criando conteúdo para a comunidade, para uma pessoa que mora num condomínio da Barra da Tijuca, sem nunca ter colado na favela, ganhar mérito com uma coisa que é sua luta? Pelo simples fato de você não ter conhecimento de algo, que era usar as plataformas de streaming. Aí vai lá, faz um remix à moda playboy e chama de "Medley da Gaiola".

Por que ficou de mãos atadas?

O que eu podia fazer? O MC (Kevin o Chris*) compactuou com isso, o autor da música era ele, ele libera, e compactuou. Eu tive que ficar para trás e ainda ser chamado de "apertador de play" quando eu estava preso, pelo Dennis. Uma atitude desprezível e covarde. Assim como foi com Tim Maia e Roberto Carlos, aconteceu com Rennan da Penha e Dennis. Eu crio conteúdo para o funk, eu não sugo. O funk é uma pirâmide, os tijolos de baixo são a favela. Se a favela parar de criar conteúdo, o funk de cima, que é o popzão, não vai ter o que absorver.

*(O GLOBO também procurou Kevin o Chris, que não quis responder)

Teve algum diálogo, por parte dele, depois que você falou sobre isso no Twitter?

Qual diálogo vou ter com um cara que me chamou de "apertador de play"? Eu tenho é que esperar ele me processar aqui em casa. Porque eu estava preso, sem direito de defesa, ele foi no Faustão tocar tudo o que eu fiz durante anos, eu tendo que ver aquilo ali. O cara não fez nada, nem um remix era, só comparar com as originais.

A questão do MC ter os direitos, como isso te afetou?

Hoje tem papel aqui em casa que todo MC que grava com a gente tem que assinar, entendeu? Que resguarda meus direitos. Mas é aquilo, né. A gente tem que trabalhar hoje em dia já pensando se o MC vai te pilantrar, tu coloca alguém dentro da tua casa para gravar pensando se você vai tomar uma pernada.

O funk, ainda mais o carioca, perdeu muito espaço nas listas de mais tocadas no streaming, enquanto o forró cresceu e o sertanejo se manteve lá. Como a pandemia impactou nisso?

O funk do Rio de Janeiro é movido a baile, se mantém com o baile, e quando não tem baile, a gente não têm novidades. Os DJs de comunidade não têm muitos recursos para gravar um clipe, por exemplo, criar muitos conteúdos... O cara fica esperando o baile para poder soltar os trabalhos dele, divulgar as músicas, é ali que às vezes a pessoa sai do baile, ouve a música e já vai para as plataformas procurar, ou viraliza ali dentro do baile mesmo. Ainda estão soltando muita música, o problema são as execuções.

Podemos falar que o funk é o gênero que mais sentiu por conta da pandemia?

Sim e não. Para quem soube trabalhar, teve condições, rolou. Vi artistas do funk que conseguiram se manter, Don Juan, vários de São Paulo. São as ferramentas, cada um consegue fazer o que pode, quando pode. O TikTok veio aí para ajudar bastante a rapaziada que é anônima, tiveram músicas aí que eram de três anos atrás e estouraram só agora, como "Preta do cabelo cacheado", que ganhou força agora. A música boa vai chegar nas pessoas uma hora ou outra.

Você tem usado o TikTok?

Eu não uso, porque não sou de ficar dançando. Acompanho, vejo a galera que faz música almejando o TikTok, mas eu prefiro que minha música não estoure por lá, porque gosto de algo mais duradouro. Eu prefiro soltar a música, 2 milhões de visualizações, e esperar ela subir organicamente, do que um sucesso momentâneo, que é o que eu sinto do TikTok. A música bomba, mas some muito rápido. Não gosto de trabalhar dessa forma.

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