Repórter Brasil é alvo de ataques virtuais em série com chantagem para que reportagens sejam apagadas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ONG Repórter Brasil vem sofrendo uma série de ataques virtuais nos últimos dias que acabam por tirar o site do veículo do ar por algumas horas. Houve ainda uma tentativa de invasão na sede da Redação em São Paulo. O veículo recebeu ameaças por email, com exigências de que todas as reportagens publicadas nos anos de 2003, 2004 e 2005 sejam retiradas do ar para que os ataques cessem. O site informou que não atendeu nem atenderá tentativas de constrangimento ilegal. A Repórter Brasil completa 20 anos de existência em 2021 e é um veículo premiado pela cobertura de crimes ambientais e de violação de direitos humanos. A equipe do site, assessorada por advogados, já acionou o Ministério Público Federal para dar início a investigações e registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil. “A situação não é apenas um flagrante desrespeito à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa, mas também possível crime de constrangimento ilegal”, afirma nota da Repórter Brasil. No último dia 6, uma série de ataques derrubou o site do veículo por algumas horas. Em seguida, a Repórter Brasil recebeu um email anônimo. “Como devem ter percebido vcs passaram por alguns problemas tecnicos na ultima data. Para que isso nao ocorra novamente removam as materias nas pastas de 2003, 2004, 2005”, dizia a mensagem. Na manhã do dia 7, houve uma tentativa de invasão à sede do veículo, mas a chegada de vizinhos impediu o arrombamento do portão. As investigações deverão esclarecer se os ataques virtuais e a tentativa de invasão estão relacionados. No dia seguinte, uma nova ameaça: “vamos esperar até 11/01 para que atendam nossas solicitações”. Nesta segunda (11), a série de ataques voltou com maior intensidade. A equipe de segurança digital do site vem neutralizando os ataques sequenciais, mas a cada vez os criminosos mudam de estratégia, gerando novas interrupções de acesso. O diretor da Repórter Brasil e colunista do UOL, Leonardo Sakamoto, afirma que o veículo recebe ataques virtuais com frequência, mas alerta para o ineditismo da ação com chantagem por autocensura. “A Repórter Brasil recebe esse tipo de ataque por sobrecarga há muitos anos. O grande diferencial, que faz com que esse ataque seja novo, é um pedido de chantagem não financeira: ou vocês cometem autocensura ou a gente não vai deixar o site de pé. Isso é muito grave”, diz. “Estamos inaugurando com isso algo muito preocupante, que se virar moda vai ser muito ruim para a imprensa brasileira. Devemos ficar de olho porque isso vai ser uma prática”, completa. Sakamoto ressalta ainda que a Repórter Brasil tem estrutura técnica e jurídica para se proteger dos ataques, mas que esse tipo de ação pode ser ainda mais danoso para veículos menores. O jornalista também relaciona a ameaça ao veículo com o momento atual do país, “em que a liberdade de imprensa é atacada sistematicamente por autoridades”. Segundo Sakamoto, pessoas, empresas e grupos organizados perdem o medo de punição e acabam à vontade para colocar em prática ações de intimidação. “O poder público não atua de forma forte para proteger a imprensa, muito pelo contrário. Então há a percepção de que determinados ataques são aceitáveis. As autoridades não atuam para garantir um ambiente livre para a imprensa e para a democracia”, afirma Sakamoto. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) cobrou que as autoridades apurem os ataques com rapidez e identifiquem os criminosos. "Os episódios não são apenas uma ameaça concreta à imprensa livre. Representam um atentado à sociedade, que tem o direito de se informar por meio de veículos independentes e plurais, como a Repórter Brasil que, em 20 anos, se consolidou como uma das iniciativas mais importantes para o jornalismo investigativo", afirma em nota. "A Abraji não aceita ultimatos e constrangimentos ilegais impostos a jornalistas e veículos. Atos criminosos como esses afrontam o direito fundamental da liberdade de expressão", completa. O advogado Pierpaolo Bottini, coordenador do Observatório da Liberdade de Imprensa do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), afirmou ser “preocupante o galopante nível de ataque as instituições jornalísticas”. “Desde o governo federal até hackers fazem sistemático vilipêndio aquilo que deveria ser defendido como pilar de uma sociedade democrática. É preciso reagir, investigar, identificar os responsáveis”, completa. A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) afirmou que é preciso ação imediata por parte das polícias Civil e Federal para identificação dos responsáveis. "É a primeira vez que temos um ataque cibernético com objetivo assumido de censura, portanto, assumidamente um ataque à liberdade de imprensa.A desfaçatez do ou dos responsáveis exige o repúdio de toda sociedade e uma resposta à altura das autoridades competentes", diz a presidente da entidade, Maria José Braga, em nota. Também em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo (SJSP) afirmou que os ataques "desrespeitam a liberdade de imprensa, afrontam a democracia e impõem censura ao site". "As ameaças e ataques, que chegaram à uma tentativa de invasão física à sede da organização, são inconcebíveis em uma sociedade democrática e não podem ser tolerados. O SJSP coloca-se à disposição dos jornalistas da Repórter Brasil para somar-se às medidas judiciais já adotadas e solidariza-se com a organização que mantém o site jornalístico", afirma.