Representação de doenças mentais no filme 'Coringa' divide especialistas

Alice Cravo*

RIO — Trazer à tona através da dramaturgia temas relacionados à saúde mental é considerado de extrema importância por especialistas. No entanto, alguns cuidados são necessários para reduzir a estigmatização sofrida por aqueles que têm algum tipo de transtorno. O filme "Coringa", em cartaz nos cinemas, virou o centro desse debate ao dividir médicos e psicólogos sobre o tratamento dado ao transtorno mental vivido por Arthur, o personagem principal da trama. O texto abaixo contém alguns "spoilers".

— A nossa sociedade preza muito pelo belo e perfeito. Mas o filme trata de uma parte dolorosa e sofrida do que é a realidade de uma pessoa que tem uma doença mental grave. Os dedos queimados de nicotina, a magreza, tudo isso é retratado. É uma parte da sociedade que a gente não quer ver, que as famílias não querem mostrar, e o cinema vai lá e mostra — diz Alcina Barros, psiquiatra e doutora em ciências do comportamento.

Equívocos 'potencialmente perigosos'

Para o psicólogo Breno Sanvicente, porém, o filme comete alguns equívocos "potencialmente perigosos" para a estigmatização. O primeiro deles seria a falta de um diagnóstico preciso da doença de Arthur, que tem traços que misturam transtornos mentais já conhecidos pela sociedade, como a depressão.

— Todas as manifestações não são compatíveis com nenhum dos transtornos conhecidos. Ele tem um pouquinho de cada uma e não se encaixa em nenhum diagnóstico. Assim, acaba sendo retratado mais como um louco do que com uma pessoa que sofre com uma doença em especial — explica o especialista.

Outro problema apontado por Sanvicente, e que já gerou muitas críticas ao filme, é a associação da doença mental à violência. Para ele, a agressividade do personagem é tratada com muita ênfase, deixando para um plano secundário da trama questões importantes, como a interrupção de seu tratamento.

— O filme traz algo válido, que é falar como o ambiente influencia na doença. Mas ao mesmo tempo associa de uma maneira muito forte esses transtornos à violência. A história faz uma relação de que, quanto mais doente o Arthur ficava, mais agressivo ele se tornava, e isso não é legal. A gente sabe que essas pessoas são mais vítimas de violência do que praticantes. Acho que o problema não é tratar a violência, isso pode acontecer, embora seja menos comum. O problema é mostrar com tanta ênfase, e tratar de uma maneira mais sutil, por exemplo, a interrupção do seu tratamento.

No entanto, a psiquiatra Alcina Barros acredita que o filme não reforce essa relação. Segundo ela, a trama retrata os multifatores da vida de Arthur que o levaram para a violência extrema, como o abandono do sistema de saúde, as violências físicas sofridas ao longo de sua vida e a discriminação.

— Ele sofreu maus tratos da mãe, teve o seu tratamento cortado pelo governo, foi rechaçado no trabalho, é discriminado na rua, violentado, agredido pelo homem que acreditava ser o seu pai e ainda virou chacota quando tentou ser comediante. A sua violência é reativa. Ele não planeja os seus ataques, ele não tortura ninguém, não tem traços de psicopatia. A violência dele é uma resposta, um impulso.

E completa:

— No início do filme ele é tão ingênuo que aceita uma arma de um pseudo amigo achando que aquilo ia protegê-lo. No seu primeiro contato com a arma ele não apontou para ninguém. Apontou para si mesmo. Ele era isolado, agredido, e isso desencadeia um comportamento agressivo.

Sistema de saúde

Tomando mais de sete medicamentos e comparecendo regularmente às sessões de terapia, Arthur se vê da noite para o dia desamparado quando o governo resolve cortar o seu tratamento. O filme traz uma importante reflexão sobre o "modus operandi" do sistema de saúde e a importância da continuidade do tratamento dos transtornos mentais.

— O bom do Arthur é que ele é um personagem que pede ajuda. Ele vai ao tratamento, ele toma os remédios, gosta de trabalhar, cuida da mãe doente. Mas em nenhum momento recebe o tratamento que merece. Ele não é atendido por uma psiquiatra em nenhum momento, e, sim, por uma assistente social. O tratamento dele é cancelado pelo governo de uma hora para a outra. Precisamos repensar as políticas públicas, o direito à medicação e o tratamento que essas pessoas recebem. Imagina um médico para mais de 300 pacientes com transtorno grave. Aquele profissional não tem condição de dar a atenção merecida por aquele paciente. O Arthur sofre com isso. Ele fala que em nenhum momento a assistente social o escutou, apenas fez as perguntas que são padrão — reforça Alcina.

A solução

A psicóloga Ana Beatriz Freire destaca um ponto até então pouco mencionado em toda a discussão que permeia o filme "Coringa". Para ela, além da crítica social ao acolhimento da psicose, a suspensão do tratamento e a questão da violência, o filme retrata as soluções que são buscadas pelos pacientes para lidar com seus transtornos.

— Quando ele se nomeia como "Coringa" ele consegue uma estabilização. Ele sofria com esse anonimato, e esse foi o caminho que ele encontrou para sair dessa posição. Ele se torna um líder. A doença mental não é perigosa em si, mas pode ter soluções perigosas. A solução de Arthur o levou para a violência.

*Estagiária sob supervisão de Eduardo Graça