Representante da FAO defende maior participação da mulher nos espaços políticos

Andreia Verdélio – Repórter da Agência Brasil

Eempoderamento é importante para que mulheres assumam posição de liderança, diz o representante da  FAO,  Alan  Bojanic   José  Cruz/Agência  Brasil

O representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic, defendeu hoje (23) maior presença das mulheres nos espaços de poder e na tomada de decisões, visando a proteger seus direitos, que muitas vezes não são reconhecidos. A afirmação foi feita durante o lançamento da campanha internacional #MulheresRurais, Mulheres com Direitos.

A ação, lançada hoje (23) em Brasília pela Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), tem o objetivo de empoderar e dar visibilidade às mulheres rurais e ao trabalho que desempenham para o desenvolvimento socioeconômico e sustentável.

Para Bojanic, o empoderamento é importante para que as mulheres assumam posição de liderança e consigam apoio na formulação de políticas públicas para garantir a equidade de gênero. “A ideia é entender que a realidade da mulher rural é, na maioria dos casos, de não ter acessos a recursos – se tem é muito limitado –, sempre vai estar em desvantagem em relação aos homens para acessar serviços, assistência técnica, crédito e titulação de terras”, disse ele, ao lembrar que, em vários países da América Latina, as mulheres rurais lidam com muitas desigualdades.

Segundo a FAO, as mulheres rurais cumprem uma série de funções-chave para a segurança alimentar regional, mas enfrentam altas taxas de pobreza, insegurança alimentar e obesidade.

Mais de 14 milhões de mulheres que estão nas lavouras, comunidades quilombolas e indígenas e nas reservas extrativistas são protagonistas da agricultura familiar no Brasil e 45% dos produtos são plantados e colhidos por mãos femininas. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, 12,68% dos estabelecimentos rurais têm mulheres como responsáveis, bem como 16% dos estabelecimentos da agricultura familiar.

Falha na comunicação

A agricultora Selene Hammer Tesch, de 53 anos, é uma dessa mulheres. Ela foi escolhida embaixadora da campanha na Região Sudeste. Natural de Santa Maria de Jetibá, região serrana do Espírito Santo, Selene está à frente de duas organizações de agricultores familiares da região e de uma chácara que tem mais de 300 variedades de produtos, entre hortaliças e temperos.

A agricultora Selene Tesch (D) é embaixadora da campanha no Sudeste  José Cruz/Agência Brasil

Selene casou-se aos 16 anos, tem oito filhos e conquistou muitos benefícios para a sua comunidade. A agricultora reclama, no entanto, que as informações não chegam a muitas mulheres. “A mulher está conquistando espaço no meio rural, mas está muito devagar, falta muita informação, nem todo mundo tem comunicação, só TV mesmo, e na TV isso não passa”, disse. “Mulher nenhuma quer ser melhor que o homem, mas quer pelo menos ser igual.”

O secretário técnico da Reunião Especializada da Agricultura Familiar do Mercosul (Reaf), Lautaro Viscay, destacou que há muito mais casos de insucesso que de sucesso. “O maior problema é que ainda tem muitas mulheres às quais as políticas não chegam. Não chegam as políticas, nem os direitos, nem a possibilidade de ser uma cidadã.”

Segundo Viscay, a campanha é um complemento para essas políticas, para informar e sensibilizar, mas o desafio é ter uma construção participativa e mais qualidade de políticas públicas nos territórios, nos municípios e nas organizaçãoes de mulheres.

Incentivos aos jovens

Para a agricultora Bruna Dariva, de 28 anos, a sucessão familiar no campo está caminhando a passos lentos. “O tempo da agricultura é um tempo diferente. Precisamos respeitar o tempo orgânico das coisas, mas temos de mostrar aos jovens que é possível ter a mesma qualidade de vida, ou até mais, no interior do que na cidade, com o mesmo acesso à tecnologia. Assim, a agricultura familiar vai se fortalecer cada dia mais”, disse.

Bruna, embaixadora da Região Sul na campanha, assumiu há cinco anos a agroindústria da família, que produz cerca de 3 mil quilos de queijo por mês. Ela chegou a deixar a casa da família no interior, mas acabou voltando e hoje também é presidente da Feira do Produtor de Erechim, no Rio Grande do Sul. No local, 45 famílias expõem seus produtos, 70% dessas famílias são geridas por mulheres.

“Encontramos bastante preconceito por parte dos homens. Por estar na agricultura, a mulher tem que provar todos os dias que é melhor no que faz. A mulher, sendo valorizada, vai conseguir cada dia mais alcançar mais pessoas”, disse Bruna.

A campanha #MulheresRurais, Mulheres com Direitos, liderada pela FAO e pela Reaf, abrange a América Latina e o Caribe. No Brasil, a Sead vai realizar ações e publicar uma série de reportagens que darão visibilidade ao trabalho feminino no campo, além de oficinas, encontros de capacitação e empreendedorismo feminino, mutirões de serviço e atividades culturais.

A Sead já oferece programas específicos para fomentar a autonomia social e econômica. As iniciativas incluem a emissão de documentos civis e trabalhistas, assistência técnica e acesso diferenciado a financiamentos de projetos e à comercialização para os mercados institucionais.

A campanha vai até novembro, e as ações podem ser acompanhadas no site www.mulheresrurais.com.br.