Repressão política explode na Rússia após Guerra da Ucrânia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A repressão política na Rússia, que vinha acumulando musculatura adicional desde 2020, explodiu após a invasão promovida por Vladimir Putin na Ucrânia e a consequente reação doméstica à guerra.

Segundo o relatório anual da ONG OVD-Info, que monitora violações de direitos humanos e oferece assistência legal a vítimas, houve de 14 de janeiro a 14 de dezembro houve 20.467 detenções políticas no país. Destas, 19.478 eram relacionadas a protestos contra o conflito ou as Forças Armadas.

A dimensão da repressão fica mais clara quando o dado é comparado com o total de prisões registradas desde que a ONG foi fundada, em 2011. De lá até 2021, foram pouco mais de 40 mil detenções consideradas políticas.

Os números se referem tanto a manifestantes presos na rua por algumas horas e liberados, a maioria absoluta, quanto a pessoas perseguidas judicialmente. A ONG conta ao todo 8.500 casos administrativos abertos, uma modalidade mais branda e que raramente leva à cadeia, e 378 criminais. Ao menos 11 pessoas foram condenadas por traição, podendo ficar décadas presas.

A repressão mais visível, com policiais descendo o sarrafo nos manifestantes, ficou evidente neste ano quando Putin invadiu o vizinho, em 24 de fevereiro.

A partir dali, houve algumas ondas de protestos contra a guerra, que por uma lei aprovada após seu começo tem de ser chamada na mídia de "operação militar especial", sob pena de punição, ainda que o próprio presidente tenha incorrido em ato falho e chamado a coisa pelo nome semana passada. Ela foi 1 das 22 aprovadas pelo Parlamento para instrumentalizar a repressão.

A mídia sofreu em especial. Veículos clássicos da democracia russa, como o jornal Novaia Gazeta, dirigido pelo Nobel da Paz Dmitri Muratov, tiveram de fechar e migrar para operações na nuvem, baseadas em outros países. Há pelo menos 17 sentenças passadas, diz o relatório, contra jornalistas. Uma editora da TV estatal teve de fugir do país após protestar em rede nacional.

A mais famosa ONG de direitos humanos russa, a Memorial, foi declarada ilegal e liquidada. Ali, o problema maior foi a defesa de direitos LGBTQIA+ na repressiva Tchetchênia --atos contra uma nova lei criminalizando o Kremlin chama de "propaganda gay" são responsáveis por boa parte das outras prisões no ano.

A violência compareceu. "Pessoas foram jogadas no asfalto, espancadas com cassetetes, estranguladas, tiveram a cabeça batida contra a parede, as mãos torcidas e algemadas", afirma o relato, que descreve alguns casos emblemáticos.

Aos poucos, Putin conseguiu controlar a situação, até porque há apoio popular à sua guerra, ainda que ele pareça ter mais a ver com apatia do que com entusiasmo. Segundo levantamento de novembro do Centro Levada, órgão independente de pesquisa de opinião pública, 79% dos russos apoiam o presidente e 74%, as ações das Forças Armadas na Ucrânia.

"Putin erigiu um Estado-fortaleza, com elementos de totalitarismo, forçando parte da sociedade a dividir responsabilidade pela guerra", afirma Andrei Kolesnikov, importante comentarista político que trabalhava para o Centro Carnegie de Moscou.

Trabalhava, no passado, pois o centro fechou as portas após 28 anos de produção intelectual sobre a vida russa por ordem do Kremlin, em abril. Só neste ano, 176 ONGs, pessoas e instituições foram tachadas de "agentes estrangeiros", geralmente por receber financiamento externo e sempre por posição crítica a Putin, e boa parte parou de trabalhar.

Isso dito, houve espasmos de reação pública ao longo do ano. O mais importante ocorreu em setembro, quando o presidente decretou a mobilização de 320 mil reservistas para tentar sanar o problema que lhe custou a captura de Kiev em fevereiro: falta de pessoal.

Houve protestos, com as respectivas prisões e repressão policial, em diversas regiões da Rússia. Putin, que viu sua popularidade cair um pouco com a reação, acelerou o processo e logo decretou a mobilização encerrada. Novamente, a situação se acalmou e hoje o rápido treinamento dessas forças tem causado preocupação na cúpula ucraniana.

A guerra exacerbou um processo que tinha ganhado corpo em 2020, na aurora da pandemia de Covid-19. É algo de longo prazo, o que condiz com os 23 anos de Putin no poder.

Inicialmente, em 2000, o presidente trouxe renovação, jovialidade e acenos de integração ao Ocidente. Se viu rejeitado, no que não deixa de ter razão, e passou a trabalhar um projeto de reconstrução nacional altamente personalista. Reelegeu-se em 2004, mas não mudou a Constituição para ficar por mais termos naquele ponto.

Preferiu ver eleito um sucessor aliado, Dmitri Medvedev, que lhe esquentou a cadeira enquanto dava as cartas do escritório de primeiro-ministro. Até aí, a dureza do regime foi direcionada para os oligarcas rivais e para o controle da TV. A mídia seguiu relativamente livre, com sites e jornais críticos.

Isso mudou a partir dos primeiros grandes protestos contra Putin, em 2012, contrários à sua volta ao poder num sistema eleitoral não necessariamente fraudulento, mas ossificado a ponto de inviabilizar oposição que não seja consentida.

Em 2017, o blogueiro chamado Alexei Navalni tratou de denunciar a corrupção do Estado, promovendo protestos gigantes em diversas cidades a partir de uma base difusa, na internet. Isso continuou de forma intermitente até que, no fim de 2020, ele foi envenenado e teve de ser levado para a Alemanha.

A prisão de Navalni, sob acusação de violar uma condicional ao voltar em janeiro de 2021, gerou uma nova onda de protestos --reprimida. Ele foi devorado pelo sistema judicial russo, que acumulou acusações contra o ativista e em março o condenou a nove anos de cadeia. Só neste ano, ele passou 90 dias em solitárias, diz o OVD-Info, que conta 23 casos criminais contra seus aliados.

Navalni não é um líder popular, nem nunca foi. Nos sonhos do Ocidente, deixaria a cadeia para desafiar Putin pela Presidência, algo hoje tão ilusório quanto achar que a elite iria derrubar o presidente assim que ele mandou os tanques para Kiev. Ainda assim, seu martírio judicial o tornou um símbolo do estado das coisas.

De lá para cá, passado o 2018 em que se reelegeu novamente e celebrou o sucesso da Copa do Mundo no seu país, Putin inclinou-se à rigidez. Em 2020, enfim mudou a lei para poder disputar eleições que podem o manter no cargo até 2036 e acirrou a repressão até o ponto atual.