Aos 130 anos, a República está em crise?

Proclamação da República completa 130 anos. Foto: Reprodução/TV Brasil


A pergunta do título foi feita pela repórter Fernanda Canofre ao historiador José Murilo de Carvalho.

“Quase todas as repúblicas estão”, respondeu o autor de “A Formação das Almas: o Imaginário da República no Brasil”.

Uma das razões, no caso brasileiro, é que “a nossa continua sujeita à interferência ‘moderadora’ das Forças Armadas”, responsáveis por conter todas as revoltas sociais que explodiram no país ao fim do Império.

“Como entender que com tanta desigualdade não tenhamos tido qualquer revolução social?”, questionou o próprio entrevistado, a certa altura.

Publicada na Folha de S.Paulo, a entrevista é reveladora. Para Murilo de Carvalho, pode-se dizer que hoje há mais democracia do que República e “talvez seja este um de nossos principais problemas”.

República vem do latim res publica - ou, “coisa pública”. Cícero, político e advogado da Roma Antiga, foi quem examinou o conceito e estabeleceu, na etimologia da palavra, a distinção entre bem comum e o privado (“que não é comum a todos, mas particular a alguns).

Para o historiador, democracia sem República, sem governo bom, sem igualdade civil, marcada por clientelismo, patrimonialismo, nepotismo, é frágil. Assim como a República, sem ampla participação, não tem futuro.

Nesta semana o presidente da República anunciou a saída do PSL para fundar um partido para chamar de seu. Um partido inspirado, já no nome, na legenda que deu sustentação à ditadura de 1964 a 1985. Entram os que estiverem milimetricamente alinhados com suas vontades, entre eles a de transformar os filhos em príncipes-herdeiros.

Por falar em príncipe, Jair Bolsonaro confessou em voz alta, há poucos dias, que deveria ter escolhido um herdeiro da antiga família real, o hoje deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança, como candidato a vice em sua chapa em 2018, e não o atual, o general Mourão.

O Brasil por pouco não voltou a ser governado por um Orleans e Bragança nos casos de ausência do chefe de Estado.

A nota curiosa é que o casamento só não foi selado porque alguém teria vazado supostos flagrantes do “príncipe” em uma suruba e agredindo mendigos. O deputado negou que soubesse o que era suruba, uma suspeita que causou mais escândalo do que a possível agressão, esta sim criminosa. Sintomas de uma sociedade calcada no moralismo.

Noves fora a tentação presidencial de trocar alianças com um monarquista da velha guarda - aquela que atribui a escravidão a uma questão da natureza - as notícias da semana ajudam a entender o estado de fragilidade do descasamento entre República e democracia nos dias atuais, em que o filho do presidente precisa vir a público defender um novo AI-5 para conter eventuais manifestações populares e democráticas.

Na mesma semana, um ministro do STF se arvorou ao direito de ganhar a senha de acesso a dados sigilosos de 600 mil pessoas, físicas e jurídicas, citadas em relatórios do antigo Coaf (conselho de controle de atividades financeiras).

Nem no tempo do imperador alguém concentrava tanta informação sobre os súditos como agora, e a apreensão sobre os dados é proporcional ao poder de sua autoridade.

Também na mesma semana, uma juíza teve a sentença anulada porque praticamente “colou” nas provas.

Lula segue esticando a corda da tensão política, provocando Bolsonaro e apostando que nas próximas eleições será preciso falar mais alto para engolir as vozes que hoje pedem moderação, e não uma declaração de guerra contra opositores.

E o IBGE acaba de publicar um retrato que poderia ser pintado por Jean-Baptiste Debret nos tempos de Brasil colônia: 75% dos mais ricos no país são negros, e 10% dos mais ricos, brancos.

Voltamos a Murilo de Carvalho: “A República extinguiu o privilégio dos Braganças, mas não conseguiu eliminar os privilégios sociais. Temos pela frente o imenso problema de incorporar ao mercado de trabalho os milhões de desempregados, subempregados e não empregáveis. Só uma combinação de República e democracia, de bom governo e inclusão, pode resolver o problema, se ainda tiver solução”.

Uma pena que neste tempo de resgate das nossas bases mais arcaicas desaprendemos também a ouvir nossos historiadores.