Requerente de asilo no Reino Unido com medo da deportação para o Ruanda

O plano do Reino Unido para deportar requerentes de asilo para o Ruanda ainda não saiu do papel, mantém-se em discussão nos tribunais. Para muitos dos imigrantes que já conseguiram cruzar ilegalmente o canal da Mancha é mais um drama com que têm de viver diariamente, mas não travou as chegadas como previa o governo britânico.

Hayat, nome fictício, é uma imigrante oriunda da Eritreia. Tem 23 anos e chegou ao Reino Unido numa pequena embarcação em julho de 2021. Como requerente de asilo, não pode trabalhar. Vive há ano e meio no mesmo hotel, numa zona de Londres de que gosta.

Recebe 40 libras por semana do governo britânico. São cerca de 45 euros. Não lhe dá para muito, mas permitia-lhe alguma estabilidade, agora abalada perante a perspetiva de ser obrigada a partir para um novo país. De novo em África.

“Quando penso no Ruanda nem consigo dormir porque eu já tinha muitos problemas na minha vida e agora, mais um", afirma Hayat, em declarações à France Press, num parque na zona leste da capital britânica.

A requerente de asilo admite não ter conhecimento sobre o país para onde o governo britânica a ameaça enviar, mas acha que "não é um país seguro".

O Portal das Comunidades Portugueses descreve o Ruanda como "um país geralmente seguro, com baixa incidência de criminalidade", mas os advogados dos imigrantes no Reino Unido, alguns ativistas que os apoiam e diversas ONG alegam ser um perigo para os requerentes de asilo.

Aos 23 anos, sete após ter deixado a Eritreia, em fuga do governo após ter recebido uma carta a ordenar que se alistasse no exército. Tinha 16 anos. "Queria acabar a escola, não queria ser um soldado", explica.

Agora, Hayat diz-se cansada e sem energia para mais uma grande mudança na sua ainda curta vida.

"Viajei da Eritreia para o Sudão a pé. Do Sudão fui para o Egito. Depois, do Egito para Itália. De Itália para a Suíça. Segui para França e vim para o Reino Unido. Estou cansada. Não tenho mais energia para ir para outro país. Para um novo país, uma nova vida", confessa a jovem nativa da Eritreia.

O acordo entre o Reino Unido e o Ruanda foi anunciado em abril. Tem um prazo experimental de cinco anos e um custo para o governo britânico estimado em quase 140 milhões de euros, a que se somava a perspetiva do então executivo de Boris Johnson de que só a ameaça de deportação iria reprimir novas chegadas clandestinas à Grã-Bretanha.

O primeiro avião com requerentes de asilo que deveria dar seguimento ao processo no Ruanda era para ter partido em junho, mas foi cancelado devido ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

A previsão do executivo da redução de chegadas também falhou. Ao longo do ano passado, mais de 45 mil pessoas conseguiram atravessar o Canal da Mancha, a partir da união Europeia, e entrar de forma clandestina no Reino Unido. Um recorde.

Mesmo assim, a sucessora de Boris Johnson, Liz Truss, e o atual primeiro-ministro Rishi Sunak, mantém-se favoráveis ao controverso plano de deportações de requerentes de asilo e, em dezembro, o governo conservador celebrou a decisão do Supremo Tribunal do Reino Unido de considerar o plano "legal".

O organismo judicial deixou ainda assim em aberto alguns processos individuais de requerentes de asilo e a apresentação de recursos contra a legalidade do acordo com o Ruanda ainda é possível. Tudo junto, o acordo anunciado há nove meses continua sem data para levantar voo.

A ameaça, ainda assim, revela-se mais um peso nos ombros de quem foge há anos em busca de uma vida melhor e pensava que a tinha finalmente encontrado no Reino Unido.