Resenha: 'Lázaro', de Lars Kepler é um livro para quem tem nervos de aço

Um dia frio, um bom lugar para ler o livro. E o pensamento lá em você, detetive Joona Linna. Depois de começar a leitura de “Lázaro”, de Lars Kepler (Alfaguara), é impossível desviar o pensamento do apuro em que o protagonista da obra, um policial, está envolvido. Perigo sempre iminente, crimes macabros e clima de constante desconfiança compõem a aura da história. Estes são alguns dos elementos que fazem de “Lázaro” um sucesso comercial com mais de 14 milhões de cópias vendidas, mas não só.

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Lars Kepler é o pseudônimo de dois escritores suecos, o casal Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. A dupla criou personagens imersos em tramas bem trabalhadas, com todas as pontas amarradas, que percorrem paisagens escandinavas sombrias. A receita de Lars Kepler não deixa o leitor passar imune pelas páginas. São muitos sustos e viradas no enredo. Características que, somadas aos personagens densos, fazem com que “Lázaro” agrade tanto a fãs de sagas best-sellers como a leitores que fogem deste rótulo na hora de escolher um livro.

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A trama transcorre nos dias atuais. Assassinatos brutais espalham-se em diferentes países da Europa. Em princípio, nada conecta os casos recentes aos crimes já desvendados pelo detetive Joona Lina na Suécia. Supostamente, um novo assassino em série está na ativa. As polícias nacionais, entretanto, demonstram pouco ou nenhum interesse em investigar. Isso porque as vítimas eram criminosos autores de outros crimes bárbaros. Tudo indica que o autor dos homicídios é um serial killer obcecado por fazer justiça e eliminar o mal. “É uma coisa asquerosa, mas em geral a polícia não faz muito esforço nos casos em que um criminoso mata outro. E quando um dos piores criminosos de um país morre, a reação usual é de alívio”, explica Anja, do mesmo departamento onde Linna trabalha.

Entretenimento delicioso

A experiência de Joona Linna solucionando crimes complexos faz com que desconfie das aparentes motivações do assassino. Além disso, dois dos novos homicídios estão relacionados a ele próprio. No celular de um dos mortos, está uma chamada telefônica para Linna. Na geladeira de outra vítima, está uma parte do cadáver exumado de sua ex-mulher. Chamar as evidências de coincidência seria ridículo.

Linna tem uma hipótese, mas nenhum de seus colegas concorda com ele. Nem o médico forense Nils Åhlén e tampouco a policial Saga Bauer acreditam que Linna esteja correto ao apontar Jurek Walter, seu antagonista, como autor. “Mirei e atirei nele (…). O primeiro tiro acertou o pescoço, o segundo no braço… Fui andando em direção a ele e atirei de novo, três disparos no peito. Acertei todos, e vi os esguichos de sangue dos ferimentos de saída das balas mancharem a neve atrás deles”, relembra a policial Bauer sobre o momento em que matou Walter. Ela é uma policial astuta e linda, que luta boxe, usa os cabelos trançados e dirige uma moto.

É aí que o leitor descobre que Walter é um vilão aterrorizante, incapaz de ser apagado da memória de quem cruzou seu caminho e permaneceu a salvo. Ele enterrava suas vítimas e as mantinha vivas até que o verdadeiro alvo entrasse em desespero por perder seus entes queridos e, então, tirasse a própria vida. Walter manipulava as pessoas com poucas palavras, plantando medo e discórdia nas suas mentes. Linna tem motivos para acreditar que Walter está vivo, o que parece improvável, ou que ele tem um seguidor, explicação inicialmente mais racional.

As 536 páginas de “Lázaro” não dão folga para o leitor. É puro suco de thriller da melhor qualidade. O ponto forte do livro não é a linguagem, que é simples, mas a trama, cheia de reviravoltas e ação. Há clichês? Sim, neste e nos demais livros da saga de Joona Linna. Os policiais são durões, há inferninhos com dançarinas de pole dance que são testemunhas importantes, cenas desnecessárias de sexo, traumas de infância e, claro, o famoso mural com fotos de suspeitos que conectam-se com linhas sobre um mapa. Mas Kepler transforma tudo isso em tempero para a relação doentia entre um vilão perturbador e um detetive genial. A mistura de ingredientes resulta em uma literatura de entretenimento deliciosa.

Paula Sperb é jornalista e crítica literária com doutorado em Letras pela UCS e pós-doutorado na UFRGS.

“Lázaro” Autor: Lars Kepler. Tradução: Renato Marques. Editora: Alfaguara. Páginas: 679. Preço: R$ 94,90. Cotação: ótimo.

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