Resgate público de companhia aérea ligada à Venezuela gera polêmica na Espanha

Emmanuelle MICHEL
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Três passageiros, um deles com traje de proteção completo, aguardam para acessar a área de embarque do aeroporto de Barajas, no dia 20 de junho de 2020 em Madri

Sessenta e três milhões de dólares para socorrer uma pequena companhia aérea com quatro aviões. O resgate público da Plus Ultra gerou polêmica na Espanha, onde a direita acusou o governo de esquerda de favorecer essa empresa ligada à Venezuela.

É "um escândalo que vai somando novos detalhes a cada dia e o governo continua sem dar explicações (...) O que está por trás de tudo isso?", questionou no início da semana Antonio González Terol, deputado do Partido Popular (PP, direita), que exigiu um comissão parlamentar sobre a questão.

Por sua vez, o partido liberal Cidadãos pediu uma investigação à Comissão Europeia, enquanto a extrema direita Vox apresentou uma queixa ao Supremo Tribunal.

No início de março, o governo do socialista Pedro Sánchez concordou em um empréstimo emergencial de 53 milhões de euros (US$ 63 milhões) para a Plus Ultra, descrita em um comunicado como "uma companhia aérea de nicho".

A empresa liga a Espanha ao Equador, Peru e Venezuela, com quatro Airbus A-340.

O dinheiro liberado pelo governo espanhol vem de um fundo especial de 10 bilhões de euros (11,89 bilhões de dólares) para resgatar empresas "estratégicas" em dificuldades devido à pandemia da covid-19.

- Peso pena -

Em novembro, o governo acordou 475 milhões de euros (US$ 565 milhões) para a Air Europa, segunda maior companhia aérea espanhola sufocada pela queda do tráfego aéreo.

O problema é que a Plus Ultra é um peso pena na aviação espanhola, com 156.000 passageiros transportados em cerca de 800 voos comerciais em 2019. A Air Europa, por exemplo, transportou 19 milhões de pessoas em 165.000 voos no mesmo ano, segundo dados do gestor de aeroportos Aena.

"O que há de estratégico em uma companhia aérea com quatro destinos, com uma participação de mercado inferior a 0,1%, com prejuízos desde que foi criada muito antes da covid e que nem mesmo está entre as 30 maiores companhias aéreas da Espanha?", questionou a líder do Cidadãos, Inés Arrimadas.

Para a imprensa e a oposição de direita, a explicação deve ser buscada na relação entre Caracas e Podemos. Uma relação forjada pelo trabalho de assessoria que alguns dirigentes da esquerda radical espanhola realizaram no passado em favor do chavismo.

Plus Ultra tem sede em Madri, mas a empresa tem entre seus principais acionistas empresários venezuelanos, que são apresentados pela direita como próximos do regime chavista.

"E se for relacionado ao Delcygate?", sugeriu o deputado González Terol, aludindo ao escândalo gerado pela reunião em janeiro de 2020 no aeroporto de Madri do ministro espanhol dos Transportes, José Luis Ábalos, com a número dois do governo venezuelano, Delcy Rodríguez, apesar de esta estar proibida de entrar na União Europeia.

O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, minimizou o ocorrido. "Se a gente matar uma barata aqui vira manchete no dia seguinte" na Espanha, declarou à AFP.

"Na Espanha, Nicolás Maduro é mais conhecido que o primeiro-ministro de Portugal, o primeiro-ministro da França", completou o chanceler. "Na Espanha, Delcy Rodríguez é mais famosa que a primeira-dama, eu não me atreveria a dizer que é mais famosa que a rainha, e todo o 'Delcygate' está mais que politizado".

- "Igualdade de tratamento" -

O assunto também irritou a concorrência da Plus Ultra.

"Exigimos igualdade de tratamento (...) Não é aceitável que algumas companhias aéreas sejam discriminadas", disse o presidente da Associação das Companhias Aéreas, Javier Gándara, ao jornal El Mundo.

Para justificar o auxílio à Plus Ultra, o governo disse em nota que a empresa oferece um serviço "complementar" ao das "grandes empresas", pois transporta principalmente latino-americanos "que viajam principalmente para visitar parentes".

Também visa proteger a atratividade do aeroporto Madrid-Barajas, garantindo ligações múltiplas, segundo o governo.

"O fato de uma empresa ser estratégica não só marca a quota de mercado que tem, mas também pertence a um setor estratégico para a economia espanhola", como é o caso do turismo, sublinhou nesta quarta-feira a porta-voz do governo, María Jesús Montero.

Na sua opinião, Barajas está "em pior condições do que outros centros de outros Estados-membros" da União Europeia.

E ela garantiu estar "absolutamente convencida de que todo o processo foi feito corretamente, após 3 relatórios independentes".

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