Resistência do Facebook a policiar publicações de Trump causa mal-estar entre funcionários

Por Julie JAMMOT
(Arquivo) O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg

O confronto entre o Twitter e Donald Trump levou a um mal-estar entre funcionários do Facebook, devido à relutância do seu diretor-executivo, Mark Zukerberg, em agir contra publicações falsas ou incendiárias feitas pelo presidente americano.

"Mark está errado e irei me empenhar da forma mais firme possível para fazê-lo mudar de opinião", tuitou o diretor de design do feed de notícias do Facebook, Ryan Freitas, assinalando que está formando um grupo com outros 50 funcionários que compartilham de sua opinião.

Vários funcionários da empresa californiana anunciaram uma paralisação on-line hoje para protestar contra a política da rede social e mostrar apoio à comunidade negra, em meio à onda de protestos nos Estados Unidos causada pela morte de um homem negro pela polícia.

"Temos que enfrentar o perigo, e não nos esconder", tuitou a funcionária Sara Zhan. "Participarei da greve virtual de hoje em solidariedade à comunidade negra." Quase todos os funcionários do Facebook estão trabalhando de casa devido à pandemia do novo coronavírus.

A origem da discórdia foi a decisão do Twitter de postar uma mensagem para os usuários na conta de Trump, convidando-os a verificar as mensagens nas quais o presidente considerava o voto pelos correios fraudulento.

Zuckerberg reagiu, em entrevista à rede de TV FoX News. Ele declarou que as redes sociais privadas "não devem ser o árbitro da verdade de tudo o que as pessoas dizem na web". Trump retuitou a entrevista.

O Twitter respondeu novamente na última sexta-feira a um tuíte de Trump no qual ele fez um alerta aos manifestantes furiosos com a morte de um homem negro de 46 anos enquanto era detido pela polícia.

"Esses bandidos estão desonrando a memória de George Floyd, e não deixarei que isso aconteça. Acabei de falar com o governador Tim Walz e lhe informei que o Exército está completamente ao seu lado. Se houver qualquer dificuldade, assumiremos o controle, mas quando os roubos começarem, começará o tiroteio ", escreveu Trump no Twitter.

O Twitter ocultou a mensagem com um aviso de que defendia a violência. No entanto, os usuários podiam clicar na advertência e ler o tuíte. A mensagem também foi postada no Facebook, mas Zuckerberg decidiu mantê-la.

"Passei o dia inteiro me perguntando como responder aos tuítes e postagens do presidente (no Facebook)", escreveu ele na última sexta. "Pessoalmente, tenho uma reação negativa visceral a este tipo de retórica divisiva e incendiária", assinalou. "Nossa posição é de que devemos permitir estas expressões no que for possível, a menos que elas gerem um risco iminente de dano ou perigo."

- Revolta na rede -

Twitter e Facebook aplicam formas próprias de verificação contra a desinformação e o conteúdo considerado perigoso, como a incitação ao discurso de ódio, assédio ou violência. Mas o Facebook isenta personalidades políticas ou candidatos destas restrições.

A posição de Zuckerberg não é a mesma de muitos de seus funcionários, que foram ao Twitter e ao Medium para expressar sua indignação.

"Não sei o que fazer, mas sei que é inaceitável não fazer nada", twittou Jason Stirman, membro da equipe de pesquisa e desenvolvimento do Facebook.

Stirman expressou sua "total discordância com a decisão de não fazer nada com as recentes publicações de Trump que claramente incitaram a violência".

"Não estou sozinho no Facebook. Não há posição neutra sobre o racismo", acrescentou.

Outros funcionários do Facebook também falaram.

David Gillis, da equipe de segurança e integridade de conteúdo, disse que o tweet de Trump "incentiva a violência extrajudicial e o racismo".