Resistência, a principal arma para sobreviver como jornalista no México

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A resistência dos jornalistas e a falta de resultados na hora de proteger esses profissionais, independentemente de quem governa o México, são algumas das conclusões de um estudo sobre a situação da imprensa no país, um dos mais perigosos do mundo para a profissão.

"Não importa quem esteja em Los Pinos [palácio presidencial]. As agressões aos jornalistas continuam", denuncia à AFP Celeste González de Bustamante, que realizou junto com Jeannine E. Relly um estudo da violência contra a imprensa nas zonas periféricas do país.

"Pensávamos, quando iniciamos esta pesquisa, que a situação melhoraria com os anos, mas isso não aconteceu. Pelo contrário, as agressões aumentaram", contou.

Na investigação, que resultou no livro "Surviving Mexico" (Sobrevivendo ao México), as autoras chegaram à conclusão de que o crime organizado conta com a proteção de funcionários públicos e algumas empresas jornalísticas.

Por outro lado, os jornalistas, a maioria situados na "periferia extrema", precisam se proteger enquanto tentam trazer à tona a corrupção e a criminalidade.

Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas, 60 informadores foram mortos no México e outros 15 estão desparecidos desde 1992. Apenas no decorrer deste ano, três informadores morreram e as ameaças e sequestros são constantes no dia a dia de muitos.

As autoras, que iniciaram o trabalho de campo há uma década, no calor de uma onda de violência sem precedentes, decidiram se concentrar nos "jornalistas da periferia".

"Os jornalistas assassinados vivem em condições extremas em termos econômicos e de capacitação, o que os torna mais vulneráveis, pois trabalham em áreas onde não têm apoio popular", disse Celeste, que também é professora de jornalismo na Universidade do Arizona, nos EUA.

- Solidariedade -

A desconfiança gerada por anos de alinhamento com o poder político e econômico aprofundou o distanciamento entres os jornalistas e a população.

"Essa é uma grande dívida que [os meios de comunicação] têm que recuperar", afirma Celeste.

Por outro lado, o aumento das agressões gerou "mais solidariedade" entre os jornalistas, que passaram a se organizar em redes de apoio.

Segundo a especialista, essas redes permitem que eles "protejam a si mesmos como jornalistas", além de ensinar como "proteger uma fonte", "como verificar uma informação", "publicar nomes", entre outras coisas.

Contudo, mesmo com a presença dessas redes, a necessidade de cuidar e monitorar o seu entorno é constante. "Às vezes, o dia a dia é tão grave que é preciso abandonar sua cidade e sair do país", ressaltou.

Devido à impunidade em torno dos assassinatos de informadores no mundo, três organizações de defesa da liberdade de imprensa, Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Free Press Unlimited (FPU) e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) acabam de anunciar a criação de um tribunal para investigar os assassinatos de jornalistas e exigir prestação de contas.

Composto por juristas internacionais, o "tribunal" realizará sua primeira audiência em 2 de novembro em Haia (Holanda) para tratar de três casos, entre eles o do mexicano Miguel Ángel López Velasco, morto em 2011.

af/dga/rpr

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