'Resolução é ilegal e ordens ilegais não se cumprem', diz Zambelli após sacar arma na véspera da eleição

A deputada federal reeleita Carla Zambelli (PL-SP), apoiadora do presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmou ter desobedecido deliberadamente a determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o porte de armas durante as eleições. A parlamentar justificou que "ordens ilegais não se cumprem". Zambelli foi filmada neste sábado sacando uma arma e apontando para um homem no bairro nobre dos Jardins, em São Paulo. Em vídeo publicado em uma rede social, ela diz ter sido hostilizada por "militantes de Lula". As circunstâncias do conflito não são claras.

Vídeo: Carla Zambelli saca arma e aponta para homem nos Jardins, em SP

Assista: Vídeo contraria versão de que Carla Zambelli 'foi empurrada'; deputada diz que foi agredida

Zambelli foi questionada por jornalistas sobre a proibição de portar arma de fogo antes das eleições. Ela respondeu que não respeita decisão do ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE.

— A resolução é ilegal e ordens ilegais não se cumprem — disse em entrevista a jornalistas depois do ocorrido.

— Conscientemente estava ignorando a resolução e continuarei ignorando a resolução do senhor Alexandre de Moraes porque ele não é legislador, ele é simplesmente o presidente do TSE e um membro do STF. Ele não pode, em nenhum momento, fazer uma lei. Isso é ativismo judicial — acrescentou.

O TSE proibiu, em setembro, o transporte de armas por colecionadores, atiradores e caçadores no dia das eleições, e também nas 24 horas anteriores e nas 24 seguintes ao dia da votação. Conforme a decisão, o "descumprimento da referida proibição acarretará a prisão em flagrante por porte ilegal de arma sem prejuízo do crime eleitoral correspondente".

Vídeos: Usaram um negro para vir em cima de mim', diz Carla Zambelli após suposta agressão de militantes petistas

Segundo Renato Ribeiro de Almeida, advogado e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, Zambelli feriu a decisão.

— Além da clara violação ao artigo, as circunstâncias fáticas do ocorrido precisam ser esclarecidas. A parlamentar pode, em tese, sofrer sanções por quebra de decoro parlamentar que, em último caso pode até mesmo levar à cassação do mandato — diz o advogado especialista em Direito Eleitoral.

Perseguição

Em registros do ocorrido que estão circulando nas redes sociais, é possível ver uma discussão entre Zambelli e um homem negro na Alameda Lorena, região próxima de onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realizava um ato de campanha neste sábado.

Último ato: Lula faz passeata na Avenida Paulista, recebe Mujica e rebate críticas sobre MEI

Em meio à discussão, Zambelli se desequilibra e cai. Ela levanta rapidamente e corre atrás do homem, junto com alguns de seus apoiadores, um deles, que é branco, aparece com uma arma na mão. É possível identificar o som do disparo de uma arma de fogo, mas não há uma imagem do momento do tiro. O homem negro é chutado por esse homem branco.

O homem negro que discutia com Zambelli segue pela Alameda Lorena até entrar num bar na mesma via. Na sequência, é possível ver a deputada chegando no local, com uma arma na mão.

Zambelli afirmou que almoçava com o filho de 14 anos no restaurante Kiichi, nos Jardins, quando teria sido agredida física e verbalmente por apoiadores de Lula na saída do local.

Relato de Zambelli

A deputada bolsonarista publicou um vídeo em seu Instagram em que afirma ter sido agredida verbalmente e cuspida pelo homem negro. Ela disse ter pedido para ele esperar ela chamar a polícia e "dar flagrante". Zambelli declarou que correu atrás dele com uma arma pois ele "evadiu".

— Me empurraram, até me machucaram aqui, me empurraram no chão, me chamaram de filha da puta, de prostituta, mandaram eu tomar no .., ele me cuspiu várias vezes. Quando ele me empurrou, eu caí, eu saí correndo atrás dele, falei que ia chamar a polícia, que ele tinha que ficar aqui para esperar a polícia chegar. E aí ele se evadiu, eu saquei a arma e saí correndo atrás dele, pedindo para ele parar. Ele ficou com medo, parou dentro de um bar, pedi para ele esperar porque eu ia chamar a polícia e dar flagrante. Ele começou a pedir desculpa. Acabamos de filmar o pedido de desculpas, eu falei: tá bom, você pediu desculpas, pode ir. Ele começou a fazer de novo — relatou a parlamentar ao lado de polícias.

Como estavam as últimas pesquisas para presidente de 2018? Veja os resultados há quatro anos e hoje

Em vídeo de quase quatro minutos, Zambelli ainda afirma que teve seu número tornado público ontem e diz que passou a receber ameaças de morte.

Relato de testemunhas

Testemunhas que estavam em um bar na esquina da Alameda Lorena com a Rua Joaquim Eugênio de Lima ouviram dois disparos no momento da confusão. Na sequência, o homem negro entrou correndo dentro do estabelecimento, seguido pela deputada federal.

Segundo dois rapazes que estavam em uma mesa, ela entrou com a arma apontada dizendo "Só vou te liberar se pedir desculpa", além de repetir "Deita no chão". Em determinado momento, o homem negro levantou as mãos para o alto, pediu desculpa e deixou o local. Zambelli teria então dito que só "não o prenderia porque hoje não é permitido", em alusão à lei eleitoral em vigência.