'A respiração já estava acabando', diz sobrevivente de desabamento de gruta

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BATATAIS, SP, BRASIL, 01-11-2021: Familiares e amigos durante velório coletivo de Bombeiros Civis, no ginásio de esportes Marinheirão, na cidade de Batatais. Os bombeiros Civis morreram soterrados durante um treinamento na gruta Duas Bocas, em Altinópolis, interior do estado de São Paulo. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)
BATATAIS, SP, BRASIL, 01-11-2021: Familiares e amigos durante velório coletivo de Bombeiros Civis, no ginásio de esportes Marinheirão, na cidade de Batatais. Os bombeiros Civis morreram soterrados durante um treinamento na gruta Duas Bocas, em Altinópolis, interior do estado de São Paulo. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)

BATATAIS, SP (FOLHAPRESS) - "Eu estava soterrado". É assim que o ajudante geral Diego Gomes de Oliveira, 32, conta como passou os momentos em que transitou entre a vida e a morte, na gruta Duas Bocas, em Altinópolis (SP), durante atividade do curso de formação de bombeiros civis que terminou com nove mortos na madrugada do último domingo.

Aluno do curso, ele foi arrancado da terra pelas pernas, por colegas de instrução, depois de ficar com o corpo todo encoberto, nos segundos derradeiros de ar que ainda lhe restavam. "Parecia um sono profundo. Se não me tirassem, eu iria continuar lá. A respiração já estava acabando, parecia que eu estava no mar, sei lá", disse.

A "quase morte" que virou vida por inteiro tem suas certezas e mistérios para Oliveira. "Querendo ou não, a gente está aqui de passagem. Nada acontece sem a vontade de Deus", falou, durante o velório dos colegas que tiveram outro destino.

Além da vontade divina, Oliveira atribui a uma série de "ses" o fato de ainda estar vivo para contar a sua história. "Graças a Deus, coloquei uma coberta [que criou um pequeno bolsão de ar]. Se não tivesse, ficaria sufocado", diz. "Eu estava deitado de lado. Se pegasse de frente, Nossa Senhora, tinha quebrado tudo", completa.

"É triste. Poderia ter sido eu. Minha mãe, minha irmã, minhas filhas estariam aqui no velório", afirma.

Por causa da pancada na cabeça, o aprendiz de bombeiro civil ficou internado em observação até o início da tarde de domingo (31). Nesta segunda, trazia consigo apenas arranhões no rosto, nos braços e nas mãos.

Sobre o momento do acidente, Oliveira diz que estavam descansando e que tentaram se aquecer. "Nós fizemos uma fogueirinha pequena. Querendo ou não, tinha que fazer, por causa dos animais. Espanta [os bichos]. E esquenta a gente", explicou. Ele disse que já se cogitava até encerrar a atividade, caso a chuva persistisse no dia seguinte.

Há seis meses no curso, Oliveira conta que se interessou pela profissão de bombeiro por altruísmo. "A gente passa na vida procurando fazer o melhor. No serviço, já sou brigadista. Acontecia alguma coisa e eu queria saber fazer para ajudar o próximo", disse.

Apesar de ter visto a morte de perto, o ajudante geral não pretende deixar a carreira que escolheu. "Eu estava precisando e me ajudaram. Imagina se todo mundo desistir disso? Quando acontecer algo, quem vai ajudar? A gente não pode desistir, não", afirmou.

Morador de Franca (SP), onde trabalha em um curtume, Oliveira é pai de três meninas, de 9, 6 e 4 anos. "Pelo que aconteceu, não era para eu estar aqui", disse.

Outro sobrevivente do soterramento, o profissional da área da enfermagem Marcelo Melo, 40, também foi ao velório dos colegas. Ele contou que foi outro que escapou por pouco. "Eu estava deitado de lado. Quando me virei, a pedra já vinha na minha direção. Tive um susto, acordei e a pedra acertou o braço de outro. Saí correndo, escutei os estrondos. Tinha uma matinha, corri para lá e me salvei", contou.

*

MORTOS NA TRAGÉDIA

Celso Galina Junior, 30

José Candido Messias da Silva, 53

Jonatas Ítalo Lopes, 28

Rodrigo Triffoni Calegari, 33

Ana Carla Costa Rodrigues de Barros, 28

Elaine Cristina de Carvalho, 52

Jennifer Caroline da Silva, 25

Natan de Souza Martins, 18

Debora Silva Ferreira (idade não informada)

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