Responsável por campanhas de vacinação, PNI completa quatro meses sem coordenador

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BRASÍLIA — O Programa Nacional de Imunizações (PNI) completa neste sábado quatro meses sem coordenador titular. Desde a saída da enfermeira Francieli Fantinato, em junho, a função é desempenhada por substitutos. Indicado pelo governo ao posto em 6 de outubro, o médico Ricardo Gurgel não deverá mais tomar posse.

Outros nomes, sonados para assumir o cargo, declinaram de um possível convite. Nomeado há três semanas, Gurgel anunciou na última quinta que havia sido informado de que não tomaria posse. O médico, que dá aulas de Pediatria na Universidade Federal de Sergipe (UFS), veio a Brasília por iniciativa própria e foi ao Ministério da Saúde para perguntar sobre a posse, que não havia sido marcada. A nomeação tem prazo de validade de 30 dias.

— Desde quinta, ninguém entrou em contato. Estou em Aracaju e volto à universidade na semana que vem. Vida que segue! — afirmou Gurgel ao GLOBO.

Fontes ligadas à pasta avaliam que o programa já havia sido colocado em segundo plano com a pandemia, o que se intensificou diante da falta de gestão. Nessa esteira, veem a demora e a dificuldade em torno da definição de um nome definitivo para a coordenação do PNI como “preocupante” e “prejudicial” aos trabalhos. O cargo, inclusive, já havia sido recusado por outros profissionais antes da nomeação do pediatra, devido a possíveis entraves políticos.

Desde que a nomeação se tornou pública, o pediatra concedeu declarações que vão na contramão do governo. Na data, Gurgel se posicionou a favor da vacinação de adolescentes contra a Covid-19, que chegou a ser suspensa pelo ministério. Além disso, também disse que era contra o uso do "kit Covid", comprovadamente ineficaz para combater a doença. Medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina são defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro e os apoiadores dele, à revelia das evidências científicas.

O anúncio do professor de Pediatria para a coordenação do PNI veio mais de três meses após Fantinato colocar o cargo à disposição. A enfermeira não teria suportado à pressão causada pela CPI da Covid, a qual quebrou seus sigilos telefônico e telemático. Após prestar depoimento, a enfermeira saiu da condição de investigada para a de testemunha. Após a saída, as servidoras Adriana Regina Farias Pontes e Greice Ikeda ocuparam a função como substitutas.

Com 48 anos de existência, o PNI é responsável por gerenciar campanhas de vacinação, como a da Covid-19. O programa, conhecido pela tradição na saúde, oferece um dos calendários de imunização mais completos do mundo, com cerca de 20 vacinas diferentes. No entanto, a avaliação é de que essa tradição tem sido ameaçada. As falhas na gestão do PNI têm levado à queda na cobertura vacinal e ao risco de surtos de doenças como sarampo e tuberculose, como mostrou O GLOBO.

Procurada pelo GLOBO, a pasta evita comentar o assunto e não justifica o fato de Gurgel ter sido nomeado, mas não empossado.

“O Ministério da Saúde informa que a servidora Greice Ikeda atua como coordenadora geral substituta do Programa Nacional de Imunização (PNI), conforme publicado no Diário Oficial da União”, diz a nota.

A situação se assemelha à de Luana Araújo, anunciada como secretária de enfrentamento à Covid-19 em maio. A infectologista, no entanto, deixou o ministério dez dias após a divulgação. À época, a pasta informou que estava em "busca por outro nome com perfil profissional semelhante: técnico e baseado em evidências científicas”, sem apresentar explicações oficiais.

Antes de Araújo, Fantinato havia sido anunciada informalmente para a secretaria, mas recusou sob a justificativa de focar no PNI. Atualmente, a médica Rosana Leite de Melo ocupa o cargo.

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