Resposta à crise: 12 projetos que auxiliam a reinserção profissional de mulheres negras e indígenas

Pâmela Dias
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RIO — Se antes da pandemia o cenário no mercado de trabalho para mulheres já era desfavorável, com a crise desencadeada pela Covid-19 o desemprego entre elas se agravou e trouxe ainda mais desigualdades. De acordo com dados do IBGE, mais da metade dos 13,9 milhões de brasileiros sem trabalho eram do sexo feminino e seis em cada dez (60%) se autodeclaravam pretos ou pardos. Para driblar as estatísticas e dar oportunidades, especialmente para mulheres negras e indígenas em situação de vulnerabilidade social, projetos voltados para a capacitação profissional e o empreendedorismo têm auxiliado essa parcela da população na luta por espaços de relevância no ambiente corporativo.

Ainda segundo a pesquisa divulgada em março deste ano, a população ocupada em todo país foi reduzida em cerca de 7,3 milhões de pessoas na comparação com 2019. A crise econômica afetou, inclusive, o trabalho informal no país, considerado a porta de mais fácil acesso à ocupação. E foi a queda do número de trabalhadores informais a principal responsável pelos recordes da taxa de desemprego e baixo nível de ocupação.

Para a empreendedora social Adriana Barbosa, investir em programas educacionais para mulheres negras, indígenas e de baixa renda é uma das formas de dar visibilidade aos projetos que elas vinham desenvolvendo ou procuravam desenvolver, mas não tinham apoio para entender como e quando começar a colocar a ideia em prática.

— É inspirador, nós, enquanto empreendedores sociais, usarmos nossa expertise para apoiar uma rede que precisa. O propósito do nosso trabalho é cooperação, para atender uma parcela da população que é rejeitada pelo mercado financeiro brasileiro — aponta.

O ato de empreender, que está diretamente atrelado à compreensão do ambiente tecnológico, é ainda um ramo protagonizado por homens, brancos, jovens de classe socioeconômica média e alta que começaram a sua trajetória nos centros formais de ensino, segundo dados da PretaLab, em parceria com a Thoughtworks.

O estudo aponta também que, desde 2015, os setores de tecnologia estão entre os que mais geram vagas de trabalho. Por conta disso, listamos 12 projetos totalmente gratuitos ou com preço simbólico, abertos para mulheres negras de todo o país.

As Minas Programam

O programa As Minas Programam surgiu em 2015, com a finalidade de oferecer cursos profissionalizantes de programação e WordPress, apelidado carinhosamente de WordPretas, para mulheres negras ou pessoas racializadas. Os cursos são gratuitos e destinados a todas as idades, sem a necessidade de ter um conhecimento prévio sobre os programas.

Para Barbara Paes, co-fundadora do As Minas Programam, a ideia do projeto surgiu da percepção de como a tecnologia e a programação eram escassas para as mulheres negras no Brasil.

— A programação ainda é vista como uma área muito masculina e que por muito tempo não foi aberta para pessoas negras. Então fizemos com que meninas e mulheres negras pudessem aprender sobre o tema, além de formar uma rede de apoio para perpetuar a necessidade da nossa união para transformar estatísticas — explica.

Acelera

O projeto Acelera é voltado para mulheres negras de 18 a 35 anos, de todo o Brasil, e tem como objetivo auxiliá-las no autoconhecimento e no planejamento profissional, a partir de sua realidade social e financeira. De acordo com a mentora e idealizadora do Acelera, Helen Lima, a proposta é fazer com que, cada vez mais, mulheres pretas ocupem cargos de liderança. O programa possui atendimento individual e personalizado, com o valor simbólico de R$ 89. Todas as participantes cadastradas recebem indicações de vagas de emprego, convite para outras mentorias e cursos.

Das Pretas

O Instituto Das Pretas é um laboratório de transformação digital gratuito e focado no protagonismo negro feminino e periférico. Com mentorias e imersões voltadas desde o autoconhecimento até o empreendedorismo, as mulheres têm a oportunidade de usufruir e compreender sobre acesso tecnologico, a fim de por em prática seus projetos pessoais e profissionais.

Energizze

O Energizze é um projeto de transformação digital e empreendedora, que tem como missão a inclusão, transformação social e redução das desigualdades raciais, especialmente das periferias brasileiras. Realizado totalmente online, a iniciativa tem como metodologia a busca de mecanismos e redes de ressignificação, conhecimento, incentivo e encorajamento através de formações imersivas que focam em potencializar os diálogos sobre planejamento, educação financeira, liderança e empreendedorismo e cidadania ativa.

Afetiva

O projeto Afetiva oferece uma série de mentorias e palestras, focado em mulheres negras e indígenas que desejam alcançar cargos de liderança. A iniciativa tem o diferencial de promover eventos através de redes sociais, como Instagram, Facebook e WhatsApp, para incentivar a participação de mulheres que, muitas vezes, só tem acesso a essas plataformas de comunicação.

Bekoo das pretas

O Bekoo das Pretas é um movimento formado majoritariamente por mulheres negras, que tem a finalidade de promover eventos musicais com um olhar feminino, no qual pudem se vestir e existir sem julgamentos. Para produzir conteúdos digitais e festas, o projeto, que atua no Espírito Santo, contrata mulheres pretas e as capacita para trabalhar em diversos setores culturais, além de promover diálogos sobre empoderamento.

PretaLab

A PretaLab é uma iniciativa do Olabi que acredita no protagonismo das meninas e mulheres negras e indígenas nos campos da inovação e tecnologia, como forma de reduzir as desigualdades sociais do país. Para capacitar essas mulheres na área, o projeto organiza eventos, formações e debates, além de ajudar outras instituições a entenderem porque é importante diversificar o ambiente de produção das novas tecnologias.

Afrolab para Elas

O Afrolab para Elas é voltado para mulheres negras e afro-indígenas, que possuam pequenos negócios ou tenham vontade de começar a empreender. A metodologia do programa oferta sessões de mentorias coletivas, estruturadas em torno de ciclos dedicados aos temas de desenvolvimento de aspectos técnicos fundamentais à criação e gerenciamento de um negócio, além de temas de fortalecimento do desenvolvimento pessoal. Ao final do curso, é desenvolvido um projeto prático para divulgação nas redes socias.

Afrolab Digital

Voltado para jovens a partir de 18 anos, o Afrolab Digital oferece conteúdos exclusivos on-line e práticas monitoradas e estruturadas em 5 etapas para impulsionar ideias empreendedoras na costuraria, alfaiataria, modelagem, tecelagem, estampagem, bordado, rendas, crochê, macramê, fotografia de moda, agenciamento de modelos, estilismo, figurinismo, maquiagem, cabeleireiro e beleza, cenografia, iluminação, fabricação de sacolas, moda plus size, moda fitness, capulanas, e toda a diversidade dos negócios no mundo da moda. Toda a mentoria é gratuita e tem patrocínio do facebook, para atender mulheres negras e indígenas engajadas com o mundo da moda.

Latinidades Pretas

Latinidades Pretas é uma plataforma online criada para reunir conteúdos, gerar renda e dar suporte às empreendedoras e empreendedores negros e indígenas, trabalhadores da cultura e da economia criativa. Nasceu em 2020, fruto de parceria entre Instituto Afrolatinas e Instituto Feira Preta. O projeto é anual e tem informações periódicas divulgadas no site.

Casa PretaHub

Localizada na cidade de São Paulo, a Casa PretaHub é um local de apoio a empreendedoras negras na digitalização de seus negócios, oferecendo acesso gratuito a espaços como estúdios de produção audiovisual, biblioteca e salas de reunião. Os espaços têm como principal objetivo viabilizar a criação de conteúdo. Em uma cozinha pop-up, por exemplo, será possível gravar vídeos e aulas de culinária. Outras áreas vão estimular a experimentação, com equipamentos como impressoras 3D.

Projeto 60+

O Projeto 60+ foi criado em fevereiro de 2020 pelo Preta Hub, através do fundo social ÉdiTodos, que reúne doze entidades, entre ONGs, aceleradoras e empresas sociais, com o objetivo de dar mentoria a mulheres negras e indígenas com mais de 60 anos sobre como usar a internet para posicionar o seu negócio. A iniciativa também oferece acompanhamento psicológico gratuito e uma ajuda financeira de R$ 400, por seis meses. As participação é gratuitas e abrange todo o território nacinal.

* estagiária, sob supervisão de Renata Izaal