Restaurantes em favelas 'roubam' clientes de shoppings em SP

BBC Brasil/Diego Padgurschi

Uma favela próxima ao shopping Cidade Jardim, um dos mais luxuosos da cidade de São Paulo, está atraindo gerentes e executivos de grandes empresas. De acordo com a BBC Brasil, os funcionários de companhias que ficam perto do local decidiram almoçar em restaurantes da favela Panorama, que oferecem preços mais competitivos (R$ 22 por comida à vontade) do que os cobrados por restaurantes do shopping, que saem por pelo menos R$ 35.

A ideia de criar um restaurante surgiu há quatro anos, com José Silvane Almeida. Segundo ele, o objetivo era oferecer uma opção mais barata aos trabalhadores que não possuem condições de pagar comida no Cidade Jardim, mas o Restaurante do Silvio atraiu mais clientes e ficou famoso entre os executivos. “Se meus clientes almoçam no shopping, gastam o VR em 15 dias. Aqui, dura o mês inteiro. As pessoas querem economizar”, explica o dono do local, que possui três andares e oito funcionários.

Segundo Almeida, são vendidas 150 refeições, em média, por dia. Em horário de almoço, há até fila para ser atendido.

Novo segmento

A favela Panorama não é a única a contar com restaurantes que chamam a atenção de pessoas que trabalham por perto. Em Paraisópolis, no Morumbi, há o Café & Bistrô Mãos de Maria, criado por uma associação de mulheres da região. Por lá há até shows de música. Perto do shopping JK Iguatemi, na Vila Olímpia, há um serviço de entregas de marmitas que sai do boteco de Regina Alves dos Santos, na favela do Coliseu, para toda a região. Quem preferir pode ir ao local para almoçar também. “Quando vejo o pessoal das empresas aqui, nem acredito. Mas fecho os olhos e digo: a vida é assim mesmo, pobre aqui e o rico do lado. Todo mundo junto”, explica Regina.

Sem preconceito

A presença de funcionários em estabelecimentos nas favelas é cada vez mais comum. Nesses locais, além de restaurantes, há estacionamentos. Para os clientes, a troca vale a pena. “Eu tinha um pouco de preconceito, achava que era perigoso. Hoje, na minha empresa, a maioria das pessoas vem comer aqui”, explica Fernanda Adrade, que trabalha como analista de estratégia. Já Talita Feba, que trabalha como publicitária, conta que amigos e parentes estranham a escolha. Dizem: ‘mas não é perigoso?’ Eu respondo que não, é tranquilo, bom e barato”, conta.