Restrições causadas pela Covid-19 podem aumentar em milhões vítimas da tuberculose

Tosse é um dos sintomas da turberculose

RIO — As restrições causadas pela pandemia de Covid-19, que dificultam o diagnóstico e o tratamento de outras doenças, podem fazer com a que a situação da tuberculose no mundo retroceda até oito anos, segundo estudo divulgado nesta quarta-feira.

Publicado pela Stop TB (Pare a tuberculose), uma iniciativa de diversas organizações para eliminar a doença, o estudo foi feito em colaboração com o Imperial College de Londres, a Avenir Health e a Johns Hopkins University, dos EUA.

Ele fez uma projeção com base em dois cenários: um com dois meses de "lockdown" (o bloqueio total à circulação não essencial) e mais dois meses, após o fim dele, para retomada dos serviços como antes. O outro, com três meses de lockdown e mais dez meses para retomada.

No pior cenário, mais de 6,3 milhões de pessoas desenvolverão tuberculose nos próximos cinco anos, e pode haver até 1,4 milhão de mortes a mais, diante da possibilidade de ausência de diagnóstico e de tratamento.

— Se a tuberculose for ignorada novamente, tudo o que foi alcançado contra a infecção mais mortal do mundo dará em nada, com o risco de infectar milhões de pessoas — afirmou a médica Lucica Ditiu, diretora-executiva da Stop TB.

A tuberculose é uma infecção bacteriana que, atualmente, mata 1,5 milhão de pessoas por ano, no mundo — mais do que qualquer outra doença infecciosa. É curável desde que seja tratada a tempo e corretamente e, acima de tudo, pode ser evitada com a vacinação infantil.

Nos últimos anos, houve uma queda contínua no número de casos, graças à evolução da oferta de serviços para tratar a doença e conter sua disseminação.

Mas a pandemia de Covid-19 e a necessidade de distanciamento social trazida por ela — dificultando, por exemplo, o deslocamento aos centros de saúde — atrasará ou até mesmo bloqueará as campanhas de detecção da tuberculose, assim como o acesso aos tratamentos para os doentes, alerta a Stop TB.

— A Covid-19 nos afetou muito. Quanto mais pessoas não forem diagnosticadas nem tratadas agora, mais problemas teremos no futuro —comenta Ditiu.

Outra preocupação se dá com os estudos para prevenir a doença. Atualmente só existe vacina infantil contra a tuberculose.

Ditiu diz que, com os esforços voltados para criar uma imunização para Covid-19, a tuberculose pode ficar esquecida.

— A tuberculose está entre nós há milhares de anos, e há 100 nós temos uma única vacina e duas ou três outras potenciais. Precisamos vacinar meio bilhão de pessoas até 2027, e nos parece espantoso que uma doença que tem 120 dias de existência já tenha 100 candidatas a vacina em desenvolvimento. Tememos que os cientistas estejam se concentrando apenas em achar uma vacina contra a Covid e esquecendo das outras doenças — concluiu a médica.